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quinta-feira, 15 de maio de 2008

A Curva de Pareto

Do efeito colateral do IVA ao papel da volatilidade das Bolsas, ou de como na realidade a curva de Pareto ainda se pode agravar mais para a maioria da população.

Físicos simulam efeitos na economia usando princípios da física estatística. Dois investigadores franceses provocam polémica ao revelar o que afecta a distribuição da riqueza no sentido de uma maior concentração ou de um maior equilíbrio. As opções nos impostos e a volatilidade dos mercados financeiros são dois "actores" da maior importância.


Jorge Nascimento Rodrigues , Science & Finance web site
Artigo «Wealth Condensation in a simple model of economy», co-autoria de Jean-Philippe Bouchaud e Marc Mézard, publicado na revista «Physica» de Fevereiro 2000
Artigo mencionado na Harvard Business Review, edição de Abril 2002, por Mark Buchanan in Wealth Happens» Livro de Jean-Philippe «Theory of Financial Risks» (compra do livro) Sobre Vilfredo Pareto Centro Walras-Pareto em Lausana
Entrevista integral em inglês com Jean-Philippe Bouchaud disponível em Gurusonline.tv versão em inglês: «REVISITING PARETO'S 'TAIL' - RESEARCHERS APPLIED STATISTICAL PHYSICS PRINCIPLES TO EXPLAIN WEALTH DISTRIBUTION»


Físicos da "complexidade" - a moda teórica emergente - metem, sem querer, a colher na política económica, ao concluírem que «tudo o que favoreça as trocas parece ser um meio eficiente de reduzir desigualdades», pelo que medidas de política fiscal que limitem as trocas poderão ser mecanismos de maior concentração de riqueza. A ilação é óbvia para o campo do Imposto sobre o Valor Acrescentado, cujo efeito "colateral" do seu aumento poderá ser o de reduzir as trocas. Contudo, o estudo não se centra neste aspecto de interesse conjuntural no nosso país.
O artigo científico publicado na revista Physica com um título aparentemente inofensivo - «Condensação de riqueza num modelo de economia simples» - foi, agora, tirado do "gueto" de um publico muito restrito entendido em física e matemática, para o mundo dos gestores e dos decisores. Um artigo («Wealth Happens») do escritor americano Mark Buchanan na revista Harvard Business Review, na sua última edição de Abril (2002), revela para a realidade norte-americana as implicações deste estudo liderado por Jean-Philippe Bouchaud, de 40 anos, físico francês do Serviço de Física do Estado Condensado (Service de Physique de l'État Condensé )do Centre d'Études de Saclay, em Paris.
Bouchaud é conhecido dos mercados financeiros. Ele lançou em 2000 um "best-seller" em inglês e francês intitulado Teoria dos Riscos Financeiros. Prémio IBM para jovem cientista em 1990, ele fundou a Science-Finance, uma empresa de investigação académica e comercial nas áreas dos mercados financeiros e da gestão de risco, hoje integrada na Capital Fund Management, também francesa. «A física estatística é a ciência dos efeitos colectivos complexos. A economia não é a ciência dos efeitos colectivos humanos?», interroga-se para nos sugerir, de imediato, o porquê desta colherada de física na distribuição da riqueza. A física estatística é, aliás, uma disciplina dura que "invade" cada vez mais outras áreas, desde a dinâmica populacional ao tráfego urbano até aos terramotos.


A "cauda" de Pareto
Bouchaud simulou com Marc Mézard, outro físico francês, o que afecta o crescimento e a distribuição da riqueza, testando a célebre curva da sua distribuição exposta pelo economista italiano Vilfredo Pareto em 1896/7. Pareto formulou na sua obra Curso de Economia Política («Cours d'Économia Politique», em 3 volumes), escrito no período em que leccionou na Universidade de Lausana, na Suíça - antes da sua guinada política do princípio do século XX - ,uma "lei" para a distribuição da riqueza que seguia um padrão logarítmico.
De um modo simples, de cada vez que se duplica o montante de riqueza, o número de pessoas que a detém diminui num factor constante. A representação gráfica desta "lei" produziu uma curva em forma de "cauda" caída, em que, no limite dela, por exemplo, uma pequena percentagem de pouco mais de 1% da população poderá deter 10% da riqueza de um país - como sucede nos EUA, em que 300 mil pessoas detém essa fatia de topo. Em países de desenvolvimento intermédio ou em desenvolvimento, com uma classe média fraca, a curva de Pareto ainda pode "cair" mais abruptamente e ficar em grande parte "rastejante" - menos de 1% pode deter mais de 50% da riqueza.
O modelo "puro" de Bouchaud e Mézard confirmou a "cauda" de Pareto. Nas simulações, verificaram que dinheiro, conexões e trocas geram mais riqueza. Já é velho o ditado de que «dinheiro atrai dinheiro», mas os físicos juntaram-lhe dois outros ingredientes fundamentais - a dinâmica de trocas existente numa dada economia e a conectividade entre os agentes. E o que concluíram é que quanto mais conectada e em rede for a malha de um tecido económico maior distribuição de riqueza poderá haver. «A conectividade ajuda a fazer 'pingar' mais riqueza de cima para baixo», sublinhou-nos, com ironia. Em suma, se só minorias - por exemplo, grupos de interesse - usufruírem do efeito de rede a distribuição da riqueza piora.


Entortar a lei
A "cauda" de Pareto pode ser "entortada", no sentido de ficar mais "rastejante" - maior condensação de riqueza numa minoria - ou mais "levantada" (maior fracção da população com níveis de riqueza média). A volatilidade dos mercados financeiros é um dos mecanismos que acentua a concentração de riqueza, diz o estudo. «É óbvio que um punhado se saiu muito bem. Mas, em média, e no longo prazo, a volatilidade cria maiores desigualdades», referiu-nos Bouchaud.
Ao contrário da ilusão "capitalista popular" da classe média de que investir em época de "bolha" aumenta, a prazo, a sua riqueza pessoal, a volatilidade bolsista com o seu comportamento em iô-iô serve para "transferir" as ex-poupanças (ou mesmo rendimentos correntes ou fruto de empréstimos) deste segmento da população para um punhado de investidores bem informados que não se deixam cegar pela ganância e que sabem ler os sinais do mercado. Nos EUA, a volatilidade "moveu" 6 biliões de dólares de uns bolsos para outros.
Se o produto dos impostos sobre a riqueza não for globalmente distribuído, mas aplicado, por exemplo, para reduzir a dívida ou financiar projectos específicos, o resultado pode ser um aumento das desigualdades
Em contraste, as políticas de impostos directos são um mecanismo de "violação" benigna da curva de Pareto. «No nosso modelo puro, os impostos sobre o rendimento reduzem as desigualdades. No limite, até poderiam matar a cauda de Pareto, se uma taxa marginal aumentasse», sublinhou. Mas, na realidade, o seu efeito automático não é o que seria desejável. A grande riqueza provêm sobretudo dos ganhos de capital (lucros, dividendos, juros, mais valias, etc.) e uma parte da média riqueza provém do facto de vários segmentos de actividade profissional e empresarial se "auto-isentarem" desse efeito regulador dos impostos sobre o rendimento.
A simulação não permite ainda concluir sobre o efeito de dois mecanismos - o de cortar nas taxas de impostos para as camadas de rendimentos altos e para as empresas e o sistema financeiro. «Até à data, o nosso modelo ainda não é tão rico - se assim o podemos dizer - a ponto de poder lidar com esses problemas. O desenvolvimento do modelo para poder responder a essas e outras decisões políticas poderá levar anos», alegou o nosso interlocutor.
O estudo descobriu ainda "um resultado curioso", nas próprias palavras deste físico. «Se o produto dos impostos sobre a riqueza não for globalmente distribuído, mas aplicado, por exemplo, para reduzir a dívida ou financiar projectos específicos, o resultado pode ser um aumento das desigualdades», concluiu Jean-Philippe Bouchaud.


Via: http://www.janelanaweb.com/manageme/pareto.html

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Uma Devastadora Crise Se Revela

Robert Brenner (*)

A presente crise pode bem vir a revelar-se a mais devastadora desde a Grande Depressão. Ela manifesta profundos e irresolvidos problemas da economia real, os quais têm sido, literalmente, embrulhados em papel de dívida ao longo das últimas décadas, bem como um aperto financeiro de curto prazo de uma profundidade que não era vista desde a II Grande Guerra.
A combinação entre a fraqueza da acumulação capitalista subjacente e o desmoronamento do sistema bancário é o que torna este deslizamento para o fundo tão intratável para os desenhadores de política económica e o seu potencial de desastre tão sério. A praga dos encerramentos e das casas abandonadas – frequentemente arrombadas e despojadas de tudo, inclusive dos fios de cobre – atinge em particular Detroit e outras cidades do Midwest norte-americano.
O desastre humano que isto representa para centenas de milhares de famílias e para as suas comunidades pode ser apenas o primeiro sinal do que esta crise capitalista realmente significa. Subidas históricas nos mercados financeiros nas décadas de 1980, 1990 e 2000 – com as suas transferências de rendimento e riqueza para o 1% dos mais ricos, que definiram toda uma época – distraíram a atenção para a real fraqueza a longo prazo das economias capitalistas mais desenvolvidas. O desempenho económico nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, medido por praticamente todos os indicadores padrão – o crescimento do produto, o investimento, o emprego e os salários - deteriorou-se década após década, ciclo económico após ciclo económico, desde 1973.
Os anos decorridos desde o início do presente ciclo, que teve origem nos inícios de 2001, têm sido os piores de todos. O crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) nos Estados Unidos tem sido o mais lento para qualquer intervalo de tempo comparável desde o final dos anos 1940. Incremento em novas fábricas ou equipamentos e criação de empregos têm estado, respectivamente, um terço e dois terços abaixo das médias anteriores à última Grande Guerra. Os salários reais por hora, para trabalhadores produtivos (que não de supervisão), que constituem 80% da força de trabalho, têm permanecido praticamente estagnados, arrastando-se aproximadamente ao mesmo nível desde 1979.
A expansão económica também não tem sido significativamente mais forte, quer na Europa, quer no Japão. O declínio no dinamismo económico do mundo capitalista avançado tem as suas raízes numa grande quebra na lucratividade, causada em primeiro lugar por uma tendência crónica para a sobre-capacidade no sector manufactureiro mundial, que remonta as suas origens até ao final dos anos 1960, início dos anos 1970. Por volta do ano 2000, nos Estados Unidos, Japão e Alemanha, a taxa de lucro na economia privada ainda não tinha completado uma retoma, não estando mais alta no ciclo dos anos 1990 do que o esteve no dos anos 1970.
Com uma mais baixa lucratividade, as empresas tiveram lucros reduzidos para acrescer as suas fábricas e equipamentos, bem como incentivos menores para se expandirem. A perpetuação de uma lucratividade reduzida desde os anos 1970 conduziu a um constante abaixamento do investimento, em proporção do PIB, em todas as economias capitalistas avançadas, bem como a reduções faseadas no crescimento do produto, dos meios de produção e do emprego.
A arrastada desaceleração na acumulação capitalista, bem como a compressão efectuada pelas empresas na sua massa salarial, de modo a restaurar as suas margens de lucro - para além dos cortes governamentais nos gastos sociais, feitos para escorar os lucros capitalistas – resultou num abrandamento do crescimento do investimento, assim como da procura governamental e privada e, portanto, num abrandamento do crescimento da procura como um todo. Esta fraqueza na procura agregada, resultado último da quebra de lucratividade, constitui há muito a principal barreira ao crescimento nas economias capitalistas avançadas.
Para contrariar a persistente fraqueza da procura agregada, os governos, dirigidos pelo dos Estados Unidos, não viram outra hipótese senão incorrer em cada vez maiores volumes de dívida, através de canais cada vez mais variados e barrocos, para manter a economia em funcionamento. Inicialmente, durante os anos 1970 e 1980, os Estados eram obrigados a incorrer em cada vez maiores défices públicos, para sustentar o crescimento. Todavia, embora mantendo a economia relativamente estável, estes défices também a tornaram cada vez mais estagnada: na linguagem da época, os governos obtinham cada vez menos impacto com a sua prodigalidade (“less bang for their buck”), menos crescimento do PIB por um dado incremento no endividamento.
Dos cortes orçamentais à economia das bolhas
Deste modo, no princípio da década de 1990, tanto nos Estados Unidos como na Europa, governos virados para a direita e guiados pelo pensamento neo-liberal (privatização e cortes nos programas sociais), sob a direcção de Bill Clinton, Robert Rubin e Alan Greenspan, procuraram superar a estagnação com uma tentativa de movimento em direcção a orçamentos equilibrados. Mas, embora esse facto não seja muito realçado pela maioria dos relatos sobre este período, esta mudança dramática teve um impacto radicalmente negativo.
Porque a lucratividade ainda não tinha recuperado, as reduções no défice, trazidas pelas tentativas de equilíbrio orçamental, resultaram num enorme golpe para a procura agregada, com o resultado de que, na primeira metade dos anos 1990, tanto a Europa como o Japão passaram por recessões devastadoras, as piores do período pós-guerra, enquanto a economia dos Estados Unidos experimentou a chamada retoma sem novos empregos (“job-less recovery”). Consequentemente, desde meados dos anos 1990, os Estados Unidos viram-se obrigados a recorrer a mais poderosas e arriscadas formas de estímulo, para contrariar a tendência à estagnação. Em particular, substituiu os défices públicos do keynesianismo tradicional pelos défices privados e a inflação dos activos, aquilo que poderíamos designar por keynesianismo dos preços dos activos ou, simplesmente, economia das bolhas (“bubblenomics”).
Na grande corrida ascensional das bolsas dos anos 1990, as grandes empresas e os lares abastados viram a sua riqueza em papel expandir-se de uma forma maciça. Deste modo, puderam embarcar num aumento sem precedentes do endividamento e, nessa base, sustentar um poderoso acréscimo do investimento e do consumo. A expansão da chamada “Nova Economia” foi o resultado directo da histórica bolha nos preços dos activos dos anos 1995-2000. Mas uma vez que os preços dos activos subiram em desafio às taxas de lucro declinantes, e uma vez que os novos investimentos vieram exacerbar a sobre-capacidade industrial já existente, seguiu-se rapidamente a quebra bolsista e a recessão de 2000-2001, deprimindo a lucratividade no sector não financeiro até ao seu nível mais baixo desde 1980.
Sem se deixar deter por isso, Greenspan e a Federal Reserve Board (Fed), com a ajuda de outros grandes bancos centrais, contrariaram o novo ciclo depressivo com uma nova ronda de inflação nos preços dos activos. Foi isso que, essencialmente, nos trouxe até onde estamos hoje. Reduzindo a zero as taxas de juro reais de curto prazo, durante três anos, eles facilitaram uma explosão historicamente sem precedentes do endividamento familiar, a qual contribuiu para o disparar dos preços imobiliários, alimentando-se dele também depois, por sua vez.
De acordo com a revista ‘The Economist’, a bolha imobiliária mundial entre 2000 e 2005 foi a maior de todos os tempos, ultrapassando mesmo a de 1929. Tornou possível um crescimento constante nas despesas de consumo e no investimento residencial, que conjuntamente conduziram a expansão. O consumo pessoal mais a construção de casas respondeu por 90 a 100 % do crescimento do PIB nos E.U.A. nos primeiros cinco anos do corrente ciclo económico. Durante este mesmo intervalo de tempo, segundo as contas do Moody’s Economy.com, o factor imobiliário, por si só, foi responsável por elevar o crescimento do PIB quase 50% acima do que o que teria ocorrido sem ele – 2,3% em vez de 1,6%.
Deste modo, conjuntamente com os défices orçamentais reaganianos de George W. Bush, os défices familiares sem precedentes contribuíram para obscurecer quão débil era de facto a recuperação económica subjacente. O crescimento da procura de consumo suportada pela dívida, bem como, de uma forma mais geral, do crédito super-barato, revigoraram mais do que apenas a economia norte-americana. Em especial por terem conduzido aí a um novo surto de importações e a um alargamento do défice de transacções correntes (balança de pagamentos e comercial) para níveis sem precedentes, promoveu também aquilo que apareceu como uma impressionante expansão da economia global.

Uma brutal ofensiva patronal
Mas se os consumidores fizeram a sua parte, o mesmo não pode ser dito dos negócios privados, apesar dos inauditos estímulos económicos. Greenspan e o Fed sopraram a bolha imobiliária de forma a dar tempo às grandes corporações para resolverem o seu problema de excesso de capital e retomarem o investimento. Mas em vez disso, concentrando-se na restauração das suas taxas de lucro, elas desencadearam uma brutal ofensiva contra os trabalhadores. Elas elevaram o crescimento da produtividade, não tanto com o aumento do investimento em fábricas e equipamentos avançados, mas cortando radicalmente nos empregos e compelindo os empregados que ficaram a preencher os vazios. Comprimindo os salários enquanto espremiam mais produto por pessoa, elas apropriaram-se, sob a forma de lucros, de uma percentagem historicamente sem precedentes no aumento que teve então lugar no PIB não financeiro.
As corporações não financeiras, durante esta expansão, elevaram significativamente as suas taxas de lucro, mas mesmo assim continuando sem atingir de novo os já reduzidos níveis dos anos 1990. Para além disso, tendo em vista o grau em que esta elevação dos lucros foi atingida simplesmente pela via do aumento das taxas de exploração – fazendo os operários trabalhar mais e pagando-lhes menos, por hora – há razões para duvidar por quanto tempo isto poderá continuar assim. Acima de tudo, porém, ao aumentar a lucratividade comprimindo a criação de empregos, o investimento e os salários, os patrões norte-americanos mantiveram em baixa o crescimento da procura agregada e, deste modo, cortaram no seu próprio incentivo para se expandirem.
Simultaneamente, em vez de aumentar o investimento, a produtividade e o emprego, de modo a aumentar os lucros, as empresas procuraram explorar os custos de empréstimo hiper-baixos para melhorar a sua posição (e a dos seus accionistas) por via da manipulação financeira – pagando as suas dívidas, distribuindo dividendos e comprando as suas próprias acção para fazer subir a sua cotação, particularmente sob a forma de uma enorme onda de fusões e aquisições. Nos Estados Unidos, ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, tanto os dividendos como a recompra de acções, como percentagem dos ganhos retidos, explodiram para os seus mais elevados níveis na época pós-guerra. O mesmo género de coisas tem vindo a acontecer um pouco por toda a economia mundial – na Europa, no Japão, na Coreia.

O rebentamento das bolhas
No final de tudo, o facto é que, nos Estados Unidos e em todo o mundo capitalista avançado, desde 2000, temos assitido ao mais lento crescimento da economia real desde a II Grande Guerra. E assitimos também à maior expansão financeira e da economia de papel na história dos Estados Unidos. Não é preciso ser marxista para dizer que as coisas não poderão continuar assim.
É claro, da mesma forma que a bolha nos mercados bolsistas dos anos 1990 acabou por rebentar, também a bolha imobiliária se esvaziou. Em consequência disso, o filme da expansão apoiada no imobiliário, que vimos durante o ciclo ascendente, está agora a passar em reverso. O preço das casas já baixou 5% desde o seu pico de 2005, mas isto é apenas o começo. Está estimado pela Moody’s que, quando a bolha imobiliária tiver esvaziado por completo, nos começos de 2009, os preços das casas terão baixado 20% em termos nominais – e ainda mais em termos reais – o que é, de longe, o maior declíneo na história norte-americana pós-guerra.
Do mesmo modo que o efeito positivo de riqueza produzido pela bolha imobiliária conduziu a economia em frente, o efeito negativo do desastre está a guiá-la para trás. Com o valor das suas residências em declínio, as famílias não podem continuar a tratar as suas casas como terminais Multibanco. Os empréstimos de garantia imobiliária estão em declínio e, portanto, as famílias vêm-se obrigadas a consumir menos.
O perigo subjacente a isto é que, não sendo mais capazes de “aforrar” putativamente através dos seus valores imobiliários crescentes, as famílias norte-americanas comecem a aforrar deveras, levando a um aumento da taxa de poupança pessoal – que neste momento está ao seu nível histórico mais baixo de sempre – puxando assim o consumo para baixo. Compreendendo como o fim da bolha imobiliária iria afectar o poder de compra dos consumidores, as empresas cortaram na sua contratação, com o resultado de que o crescimento do emprego caiu significativamente, desde inícios de 2007.
Graças à crise imobiliária galopante e à desaceleração no emprego, logo no segundo quartel de 2007, os fluxos monetários totais que entraram para a disposição das famílias, em termos reais, que tinham crescido a uma taxa de 4,4% em 2005 e 2006, caíram para perto de zero. Por outras palavras, se adicionarmos o rendimento real disponível das famílias, mais os seus levantamentos em crédito de garantia imobiliária (“home equity”), mais os seus empréstimos para consumo, mais as suas realizações em ganhos de capital, ver-se-á que o dinheiro que as famílias tinham efectivamente para gastar tinha parado de crescer. Bem antes que a crise financeira batesse à porta, no Verão passado, a expansão já estava no seu estertor final.
Complicando enormemente esta recessão e tornando-a extremamente perigosa, está, é claro, o colapso dos créditos hipotecários de risco (“sub-prime”), que se verificou como extensão do rebentamento da bolha imobiliária. Os mecanismos que ligam os empréstimos hipotecários sem escrúpulos realizados a uma escala titânica, aos encerramentos de casas em massa, ao colapso do mercado de títulos (“securities”) sustentado pelas hipotecas de risco, à crise nos grandes bancos que detinham directamente tão grandes quantidades destes títulos, tudo isto requereria uma discussão em separado.
O que aqui podemos dizer, à laia de conclusão, é simplesmente que, porque as perdas bancárias são tão grandes, desde já enormes, e em vias de crescer cada vez mais à medida que a recessão se torna pior, a economia enfrenta a perspectiva, sem precedentes no período pós-guerra, de uma paralisação total do crédito no exacto momento em que entra em recessão. Os governos enfrentam, agora mesmo, problemas de dificuldade sem paralelo conhecido, para tentar evitar este resultado.

(*) Robert Brenner é professor no Departamento de História e director do Center for Social Theory and Comparative History da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), tendo-se distinguido pelas suas teses originais sobre a origem do capitalismo na economia rural inglesa, as quais deram origem a um animado debate entre historiadores marxistas nos anos 1970, que ainda hoje prossegue (Brenner debate). É também autor de algumas obras sobre economia contemporânea, como ‘The Boom and the Bubble’, New Left Review, Novembro-Dezembro de 2000, ou ‘The Economics of Global Turbulence’ London: Verso, 2006. É geralmente criticado por, na sua obra de historiador, como na de economista, privilegiar a análise dinâmica das relações sociais horizontais (concorrência) sobre a das relações verticais (luta de classes). O presente artigo foi originalmente publicado no nº 132 (Janeiro-Fevereiro de 2008) da revista norte-americana ‘Against the Current’: http://www.solidarity-us.org/node/1297 .

Via: http://www.ocomuneiro.com/nr6_04_robertbrenner.html

Segredos dos Centros Bancários Offshore

Um grande especialista revela segredos dos centros bancários offshore

por Entrevista de Michael Hudson a Standard Schaefer [*]

A indústria petrolífera estabeleceu a prática, há um século atrás, de os navios arvorarem "bandeiras de conveniência" como meio de evitar impostos sobre o rendimento. Desde a década de 1960 o próprio governo norte-americano tem encorajado bancos americanos a instalar filiais de centros hot-money [NT] no Caribe e em ilhas mais distantes a fim de atrair dinheiro estrangeiro para o dólar.
O objectivo inicial era ajudar a financiar a Guerra do Vietnam tornando os EUA numa nova Suíça para o hot money do mundo. Esta política teve êxito em transformar os Estados Unidos num centro de capital volátil para ditadores do terceiro mundo, presidentes mexicanos e oligarcas russos. A antiga União Soviética agora financia uma porção substancial do défice da balança de pagamentos dos EUA com o capital volátil dos "reformadores" neoliberais facilitado pelos cleptocratas da retaguarda. O resultado transformou-se num sistema completo que permite às corporações transnacionais evadirem impostos por toda a parte, incluindo os próprios Estados Unidos. Isto permite a investidores internos globalizarem as suas operações através da montagem de filiais offshore estilo Enron nas Ilhas Cayman, nas Índias Ocidentais Holandesas ou em alguma pequena e agora famosa ilha do Pacífico à sua escolha.
O sistema de regulamentação permissivo relativo a estas cabeças de ponte offshore da evasão fiscal evoluiu para um ponto que permite a investidores americanos e europeus livrarem-se de impostos simplesmente contratando um advogado para montar um escritório num lugar conveniente e descobrir uma firma de contabilidade apta a efectuar os seus registos acriticamente — o que é suficientemente bom para a aceitação das autoridades fiscais nestes dias de operações tributárias reduzidas. O resultante mergulho no ratio das obrigações fiscais das corporações em relação ao rendimento nacional tem sido um factor de grande importância no crescente défice do orçamento federal dos EUA. Negócios — e especialmente o sector financeiro — estabelecem companhias testas-de-ferro e ajustam os seus preços de transferência (exemplo: sobre vendas de matérias-primas a refinarias, e de produtos refinados ou semi-manufacturados para os seus distribuidores finais nos países industriais) de modo a terem todos os seus lucros nestes enclaves livres de impostos. O capital volátil não deixaria os países se não tivesse algum lugar seguro para ir. Um crescente número de ilhas para evitar impostos aproveitam o facto de que elas são bastante pequenas para adoptarem quaisquer códigos fiscais que pretendam. Advogados a actuarem por conta de lobbies financeiros e de negócios na América do Norte e na Europa redigiram leis que transformam estes centros bancários naquilo que o Prof. Hudson chama anti-Estados.
SS: Em anteriores entrevistas o sr. explicou como a economia tem sido "financiarizada" de modo a libertar empresas do fisco. Que papel desempenham nisto os paraísos fiscais? MH: As empresas montam companhias de comércio em ilhas sem impostos e declaram quaisquer rendimentos ou ganhos de capital que obtenham no imobiliário, acções ou outros investimentos como feitos nestas "cascas" (shells) . Isto levou à ironia de que os impostos tornaram-se puramente voluntários para os negócios modernos. SS: Como isto afecta a economia interna dos EUA? MH: Desonerar de impostos os rendimentos dos negócios — e os rendimentos financeiros em particular — faz com que os contribuintes individuais suportem o fardo fiscal através da retenção nos salários da Segurança Social, Medicare e contribuições de fundos de pensão. Os consumidores também suportam um fardo crescente por meios de impostos sobre as vendas e outros impostos locais. SS: As estatísticas confirmam isto? MH: Os paraísos fiscais offshore permitem às companhias multinacionais dar a impressão de que não ganham quaisquer rendimentos com os negócios feitos nos países onde os impostos são gravados a taxas europeias ou norte-americanas. A realidade é que as companhias americanas fazem um bocado de dinheiro que não declaram. Entretanto, os centros bancários offshore libertam-nas de terem de pagar impostos sobre estes rendimentos, ou sobre ganhos de capital. É por isso que estamos a incorrer em défices orçamentais tão elevados hoje em dia. SS: Sei que tem uma experiência de 40 anos em relação a estes centros bancários offshore e enclaves livres de impostos. MH: Aprendi sobre eles no decorrer do meu trabalho como economista especializado em balança de pagamentos, e posteriormente como administrador de um fundo mútuo. Minha primeira pista sobre como estes enclaves eram montados tive ao trabalhar para o Chase Manhattan Bank em 1965-66 e me foi atribuida a tarefa de redigir um relatório sobre os impacto da indústria petrolífera na balança de pagamentos dos EUA. Depois de ler os livros habituais sobre como o cartel operava em todo o mundo ainda tinha dificuldades em perceber as declarações de rendimentos e despesas da indústria petrolífera e as estatísticas publicadas pelo Departamento de Comércio. Meu principal problema era descobrir onde as companhias de petróleo faziam os seus lucros. Seria na produção final onde o petróleo bruto era extraído do chão, ou na fase do processamento onde o petróleo era refinado, ou na distribuição final onde era vendido aos seus utilizadores finais para aquecer edifícios, movimentar carros, voar aviões e fabricar produtos petroquímicos e plásticos? David Rockefeller conseguiu-me um encontro numa tarde com Jack Bennett, o tesoureiro da Standard Oil of New Jersey (a velha Esso antes de ter mudado o seu nome para Exxon). "Os lucros são feitos exactamente aqui, no gabinete do Tesoureiro", explicou ele, "onde quer que eu decida". Ele mostrou-me o vasto espaço de manobra (leeway) que um conglomerado global organizado verticalmente desfruta por ser capaz de assinalar "preços de transferência" feitos para declarar o lucro global em qualquer ponto em que os impostos sejam mais baixos no estatisticamente labiríntico trajecto do petróleo entre a cabeça do furo e o postos de abastecimento de gasolina. Os impostos eram mais baixos (de facto, não existentes) no Panamá e na Libéria, onde a indústria regista devidamente os petroleiros sob as suas bandeiras de conveniência. A Standard Oil apreçava baixo o bruto para estes navios filiados, e vendia-o a preço alto, quase a preço de retalho a refinarias e tomadores no mercado dos países industriais consumidores de petróleo. SS: Como é que alguém poderia utilizar as estatísticas para detectar o que está a acontecer? MH: Não é fácil descobrir transações com estes países de bandeira de conveniência nas estatísticas da balança de pagamentos dos EUA. Ao invés de serem listados como países genuínos na África ou na América Latina, eles aparecem ao invés disso sob um obscuro título de coluna chamado "internacional". Os que os vêem apressadamente tendem a passar isto por alto, pois não indica um país ou região específica. Algumas pessoas podem imaginar mesmo que isto se refira a veneráveis organizações internacionais como as Nações Unidas, o FMI ou o Banco Mundial. Mas o que "internacional" significa é, muito simplesmente, "navios internacionais" registados sob bandeiras de conveniência. Muito adequadamente, eles não pertencem realmente à economia de um país estrangeiro, porque é uma ficção legal de que as companhias dos EUA utilizam simplesmente para produzir pós de impostos numa base irrealista "como se". SS: O sr. está a dizer que as estatísticas são traduzidas numa linguagem de irrealidade. MH: Uma não realidade cuidadosamente estruturada — e uma não realidade que tem consequências para o mundo real, pode estar certo. A essência deste jogo é que a Esso e outros majors do petróleo foram capazes de "jogar" os sistemas fiscais mundiais pela venda do seu petróleo bruto a um preço tão baixo às suas companhias de navios petroleiros de modo a deixar pouco rendimento para a Arábia Saudita, Venezuela ou outros países produtores de petróleo. Isto desencorajou-os a assumirem o controle da sua riqueza mineral, especialmente porque eles não têm frotas de petroleiros para movimentar este óleo. As filiais de navegação das corporações deram meia volta e vendem o seu petróleo às suas refinarias a jusante. Estas geralmente foram localizadas seguramente no offshore em diferentes jurisdições políticas (ex.: Trinidad para o petróleo venezuelano). O petróleo era transferido a tão alto preço que apesar do pesado investimento de capital nestas instalações, os refinadores e os distribuidores relatavam perdas ano após ano, década após década. SS: Como puderam as autoridades fiscais na Europa e nos EUA não entender o que estava a acontecer? MH: É aqui que o poder de lobbying político dos grandes grupos de interesses entram em cena. A sua capacidade para evitar ter de declarar rendimentos sobre os quais os impostos seriam devidos reflectiu a passividade dos colectores de impostos na Europa e na América do Norte onde estavam localizadas a maior parte das instalações a jusante. Alguém pode pensar que tais governos teriam imputado um imposto mínimo, com base no princípio de que qualquer investimento deve esperar ganhar pelo menos uma taxa normal de retorno, do contrário não seria efectuado ou mantido. Fechando os olhos a esta lógica, os governos aceitaram as declarações de lucros e perdas tal como os contabilistas das companhias as submetiam. Eles permitiram que os lucros da perfuração de petróleo, refinação e marketing desaparecessem no buraco negro da navegação internacional. As companhias mineiras seguiram uma prática contábil semelhante, com as suas frotas de navios e refinarias. Estas companhias de petróleo e de minerais estavam entre as maiores multinacionais. SS: O sr. está a dizer que os lucros caíram estatisticamente, mas não realmente. O que significa isto para a teoria de que os preços de mercado estabelecem (allocate) recursos eficientemente ao reflectirem custos de oferta e procura? MH: O desenvolvimento de abrigos fiscais em países bandeira de conveniência para registar lucros corporativos dificilmente pode ser encarado como um fenómeno meramente marginal. Por aproximadamente um século desempenhou um papel central nas economias americana e europeia. Mas os preços são fictícios ao invés de resultarem de custos reais ou da oferta e procura. Somente o imenso poder político destes sectores extractivos poderia ter induzido os seus governos a permanecerem tão passivos em face do dreno fiscal que eles implicam — um tratamento fiscal favorável negado aos demais contribuintes. Entretanto, gradualmente outros sectores aprenderam a emular a estratégia de evitar impostos pela utilização de centros bancários offshore. SS: Além dos preços de transferência eram usados outros truques contábeis? MH: Companhias mãe consolidaram os seus campos petrolíferos no Extremo Oriente, África e América do Sul dentro dos seus balanços internos americanos por meio da organização das mesmas não como filiais estrangeiras distintas mas sim como "ramos". Esta tecnicalidade permitiu-lhes tomar todo o crédito fiscal americano por esgotamento (depletion) em relação ao seu rendimento. O esgotamento de recursos de outros países era tratado como se eles fizessem parte da economia americana — excepto que os lucros eram tomados na Libéria e no Panamá. SS: O sr. teve quaisquer conflitos ao trabalhar para o Chase e as companhias de petróleo ao produzir este relatório? MH: Foi-me dada rédea larga. Disseram-se para produzir as melhores estatísticas possíveis. Eles tornaram claro que se as respostas não fossem aquelas que eles e a indústria do óleo esperavam, não publicariam o meu relatório, mas pelo menos queriam saber qual era a situação estatística. Aceitei a encomenda nestes termos. COMO OS GOVERNOS RUSSO E AMERICANO ALIMENTARAM OS CENTROS OFFSHORE DE CAPITAL VOLÁTIL SS: Como estes paraísos fiscais evoluíram para centros financeiros offshore independentes das operações de companhias de navegação? MH: O denominador comum é evitar impostos, mas a proliferação de centros bancários offshore ganhou uma vida própria, com base no capital volátil e no hot money . SS: Isto também ocorreu em resultado de manobras fiscais corporativas? MH: Esta não foi a principal motivação. A Suíça e o Liechtenstein teriam bastando para o nível de capital volátil e poupanças criminais que caracterizavam a década de 1950. A fim de os paraísos hot-money de tipo moderno emergirem, teve de ser criada uma configuração institucional para possuir dólares ou outras divisas duras fora dos seus países de origem — algo que proporcionasse o mesmo grau de "privacidade", "confidencialidade" e portanto imunidade em relação às autoridades que a Suíça proporcionava com as suas famosas leis do segredo bancário. As companhias de petróleo e de minérios não infringem as leis nem fazem qualquer coisa ilegal, e portanto não precisam desta espécie de privacidade. Elas simplesmente redigem e emendam as leis fiscais para inserir alçapões (loopholes) em favor de si próprias. O dinheiro real era mantido nas suas sedes. Mas os centros bancários offshore destinavam-se a uma espécie diferente de depósitos — aquele que precisava ser mantido fora do alcance das autoridades americanas ou europeias. SS: Então como se desenvolveram estes veículos offshore para depósitos de dólares? MH: Na realidade, o grande catalisador foram os soviéticos e os próprios governos americanos. A história começa com a criação do mercado do eurodólar durante os anos da Guerra Fria. Em fins da década de 1950 a União Soviética tinha um problema. Precisava de contas bancárias denominadas em dólares americanos para pagar os seus vários programas de despesas no Ocidente. Mas a Guerra Fria aquecia, ela temia que o governo americano pudesse confiscar suas contas bancárias nos EUA (tal como o Chase Manhattan faria com o Irão após o derrube do xá). A Rússia portanto abordou um certo número de bancos britânicos e sugeriu que estabelecessem contas permitindo às agências soviéticas manterem as suas receitas de dólares em contas denominadas em dólares (ao invés de converte-los em libras esterlinas) e utilizar estas contas em dólar para pagar fornecedores no Ocidente. Os bancos britânicos concordaram e assim nasceu o mercado eurodólar — um mercado para depósitos de dólares possuídos fora dos Estados Unidos. SS: Assim, uma grande inovação no capital financeiro foi estabelecida pelos próprios soviéticos. Percebiam eles o que estavam a fazer? Ao tentarem evadir-se ao controle americano, acabaram por ajudar ou prejudicar os interesses globais dos EUA? MH: Ninguém captou as implicações a princípio. Como acontece muitas vezes, esta inovação financeira alimentou uma sucessão de consequências inesperadas. As multinacionais americanas consideraram útil manter dólares offshore para facilitar suas próprias transações, especialmente quando elas começaram a comprar firmas europeias e outras estrangeiras e estabelecer os seus próprios ramos além mar. Os bancos americanos montaram agências (branches) em Londres e outros centros monetários a fim de servir estas companhias. Quando a política monetária foi endurecida, durante o anos da Guerra do Vietnam, estes bancos acharam mais fácil a oferta de dinheiro vinda das suas agências estrangeiras. As agências reguladoras bancárias não haviam previsto este desenvolvimento e não impuseram qualquer exigência de que as matrizes pusessem de lado reservas contra os depósito que vinham destes ramos estrangeiros. Assim, os depósitos eurodólar tornaram-se a grande fonte de depósitos para os grandes bancos internacionais americanos para emprestar quando o dinheiro estava a ficar apertado devido ao dreno da Guerra do Vietnam na balança de pagamentos. COMO O GOVERNO AMERICANO PRESSIONOU O CHASE A MONTAR AGÊNCIAS NOS CENTROS DE HOT-MONEY SS: Qual foi a experiência mais notável que teve com estas instituições? MH: A Guerra do Vietnam estava a empurrar a balança de pagamentos para o défice, drenando a oferta de ouro que suportava a divisa. O ouro fora a alavanca da potência financeira internacional dos EUA desde a Primeira Guerra Mundial, e agora estava a fluir para fora a fim de pagar a guerra no sudeste asiático. As administrações Johnson e Nixon sabia que se travar a guerra significasse menos consumo interno os eleitores opor-se-iam à guerra. Assim, eles prosseguiram uma política de canhões e manteiga, promovendo um consumo interno pesado e gastos deficitários, deixando pouco para vender para fora. Os Estados Unidos não estavam desejosos de permitir que sectores económicos chaves fossem vendidos a estrangeiros para equilibrar os seus pagamentos internacionais, embora aconselhassem outros países devedores a fazer isso depois de 1980. Responsáveis americanos procuram atrair divisas estrangeiras de qualquer forma, mas as suas opções eram limitadas. Uma grande possibilidade permanecia: atrair capital volátil estrangeiro. Isto podia ser feito sem ascender as taxas de juros internas, mas proporcionando um paraíso seguro para o hot money estrangeiro. Portanto, os estrategas geopolíticos americanos estavam desejosos de aceitar depósitos bancários estrangeiros, sem importar de onde viessem. Em termos de balança de pagamentos, o dinheiro estrangeiro ao ser convertido em dólares e mantido em agências estrangeiras de bancos americanos faria isto tão bem como dinheiro em bancos americanos, na medida em que estes depósitos fossem mantidos em dólares e não em divisas estrangeiras. SS: Isto foi uma política explícita MH: Bastante explícita. Isto foi no tempo em que tanto hot money estava a ir para a Suíça que o seu franco estava a tornar-se a mais dura divisa do mundo. Os estrategos financeiros americanos procuraram uma política que apoiasse o dólar em grande parte da mesma maneira. O Departamento de Estado e do Tesouro abordaram os principais bancos internacionais do país com uma proposta para fazer algo que eles teriam temido fazer sem o incentivo oficial. Eles deviam estabelecer e expandir as suas próprias agências nos grandes centros de capital volátil do mundo — e talvez ajudar a estabelecer alguns novos. Isto não só atrairia dinheiro volátil estrangeiro como manteria internamente as quantias substanciais que estavam a ser enviadas para o exterior pelos evasores fiscais americanos. Em 1996 um antigo empregado do Departamento de Estado que se havia tornado responsável do Chase perguntou a minha opinião acerca de um memorando que esboçava o interesse comum entre a diplomacia económica e os bancos internacionais do país em relação ao estabelecimento de agências offshore destinadas a atrair algum do hot money do mundo afastando-o da Suíça e de outros centros de capital volátil. Os EUA são provavelmente o segundo maior centro volátil no mundo, mas com pouca probabilidade de rivalizar com a Suíça num futuro previsível. Tal como a Suíça, o dinheiro volátil flui para os EUA provavelmente de todos os países do mundo. É manuseado quase exclusivamente pelo grandes brokers de Nova York e Miami, advogados, e principais bancos comerciais. Responsáveis do próprio CMB International Department and Trust Department confirmam que manuseiam uma razoável quantia de dinheiro volátil estrangeiro. Entretanto, isto é insignificante em relação ao total potencialmente disponível. Há um consenso geral entre responsáveis do CMB e peritos tanto americanos como europeus que entidades com base nos EUA ou controladas pelos EUA são gravemente penalizadas na competição pelo dinheiro volátil com os suíços ou outros centros monetários a longo prazo. Isto se deve aos seguintes factores interrelacionados: (a) A demonstrada capacidade do Tesouro americano, do Departamento da Justiça, da CIA e do FBI para obterem registos de clientes, congelarem contas de clientes, e forçarem o testemunho de responsáveis americanos em entidades controladas pelos americanos, com apoio adequado nos tribunais americanos. (b) O investimento restritivo americano e os regulamentos e políticas de corretagem, os quais limitam a flexibilidade e o segredo da actividade de investimento. (c) O imposto americano sobre património e a retenção fiscal sobre investimentos estrangeiros. (d) O papel dos EUA como grande contendor na Guerra Fria, e a resultante probabilidade de que investimentos através de uma entidade americana poderiam ser expostos a qualquer hostilidade ou congelamento de activos ocorridos devido à Guerra Fria. (e) A visão geralmente mantida (e parcialmente incorrecta) de muitos estrangeiros refinados de que os administradores de investimentos americanos são ingénuos e inexperientes na manipulação de fundos estrangeiros, especialmente em mercados estrangeiros. Apesar destas limitações, os EUA provocaram o interesse de possuidores de dinheiro volátil sob outros aspectos. Isto inclui: Os maiores e mais activos mercados de valores (securities) do mundo, assegurando tanto liquidez como diversificação. Facilidade de transferências e manuseamento mecânico de investimentos, parcialmente através da rede mundial de bancos americanos. A principal reserva de divisas do mundo, o dólar americano. Em anos recentes, inigualada estabilidade financeira e um dos mais altos níveis de crescimento económico entre os principais países industriais. Finalmente, probabilidade desprezível de revolução ou confisco, e baixa probabilidade de inconvertibilidade. O memorando citava Beirute, Panamá, Suíça e outros centros a partir dos quais os governo americano convidava o Chase a atrair capital volátil internacional através da colocação dos seus serviços à disposição dos ditadores existentes e em perspectiva, traficantes de droga, criminosos e mesmo adversários da Guerra Fria. O Chase e outros grandes bancos americanos responderam com a montagem de uma rede de centros offshore para converter os EUA numa Suíça de alto nível. SS: Isto realmente aconteceu, e o governo concordou com isto? MH: O governo e os bancos estavam bem conscientes do facto de que os delinquentes são as pessoas mais líquidas do mundo, pela simples razão de que eles temem possuir propriedade à plena vista das autoridades — excepto nos caos em que a sua propriedade real pode ser lavada através de um labirinto de companhias fachadas e placas com nomes nas dobras legais dos gabinetes de advogados offshore que ganham a sua vida administrando tais estratagemas financeiros. As grandes firmas de contabilidade americanas, firmas legais e conselheiros de investimento logo entraram no negócio de aconselhar corporações e clientes ricos a montarem contas bancárias offshore em nome de companhias de papel. SS: Parece uma bomba. Alguma vez já publicou isso? MH: Mostrei ao professor de ciências económicas e jornalistas canadiano Tom Naylor, o qual reproduziu-o em 1987 no seu livro Hot Money , páginas 33-34. O livro foi traduzido em muitas línguas e reimpresso numerosas vezes. Está para ser reimpresso outra vez este ano pela McGill-Queens University Press, no Canadá, e de facto estou a escrever uma introdução para a próxima edição. Mas realmente não tem havido muita discussão, porque o assunto do hot money continua fora das preocupações da maior parte dos economistas académicos. SS: Houve algum debate sobre se isto era a coisa certa a fazer? MH: Sim, uma série de audiências no Congresso foram efectuadas, e muitos relatórios excelentes foram incluídos. Mas a moralidade do certo-ou-errado não desempenhou um grande papel. Uma das principais questões políticas era simplesmente se o governo deveria impor uma retenção impositiva de 15 por cento sobre propriedades (holdings) estrangeiras de títulos do Tesouro, com base em que isso provavelmente seria o único rendimento fiscal que recuperaria. Porta-vozes do governo convenceram o Congresso a não impor o imposto, argumentando que esta desencorajaria o hot money estrangeiro — e também o hot money americano, pois isto importa — de possuir títulos do Tesouro. Os Estados Unidos precisavam de todo mercado que pudessem criar para os seus títulos naquele tempo, para deter a saída de ouro. Assim, o imposto de retenção sobre o estrangeiro foi abolido. SS: Por outras palavras, o Tesouro permitiu evitar impostos internos americanos a fim de conseguir uma entrada de dólares na balança de pagamentos, e manter baixas taxas de juros internas. MH: Sim. O IRS já permitira evitar a ocorrência de impostos sob pressão das grandes multinacionais tais como as companhias de petróleo e mineração. A integração vertical permitia-lhes administrar preços de transferência de uma forma que minimizava o seu passivo fiscal global. Privando-se de onerar fiscalmente os juros pagos pelos títulos do Tesouro americano favoreceu o hot money americano. No fim da década de 1960 os Estados Unidos estavam a caminho de tornar-se o principal paraíso para o capital volátil do mundo. O Citibank, o Chase e outros estabeleceram ou expandiram operações para que as suas subsidiárias de "private banking" oferecessem "confidencialidade" a clientes, que vão desde os principais políticos do México até os cleptocratas da Rússia na década de 1990. SS: Mas o preço foi dar aos infractores da lei internacionais um melhor tratamento fiscal do que aos cumpridores da lei e cidadãos contribuintes. MH: Sim, e há uma razão para isto. O mais impressionante disso é que a maior parte dos detentores de liquidez na sociedade de hoje são criminosos e evasores fiscais. Eles têm uma boa razão para evitar o imobiliário ou outras propriedades tangíveis. É demasiado visível para acusadores e autoridades fiscais. É por isso que as estatísticas de balança de pagamentos classificam os movimentos de capital como "invisíveis". Prestigiosas firmas de contabilidade e parceiros legais ocupam-se em inventar truques para evitar impostos e criar um "véu de intermediários" ("veil of tiers") para proporcionar um manto de invisibilidade para a riqueza acumulada por desfalcadores, evasores fiscais, uns poucos traficantes de droga, traficantes de armas e agências de inteligência do governo para utilização nas suas operações encobertas. SS: Assim, tudo isto tornou o capital financeiro mais cosmopolita e menos sujeito à regulamentação nacional e ao controle governamental. MH: Sim, e no fim da década de 1980 administradores de dinheiro americanos estavam a incorporar fundos mútuos offshore para penetrar nos mercados globais de capitais. COMO CENTROS HOT-MONEY TRANSFORMARAM O CAPITAL VOLÁTIL NUM MERCADO PARA DÍVIDAS GOVERNAMENTAIS SS: Qual foi o efeito destes paraísos fiscais e centros bancários sobre as economias dos outros países? MH: Tal como as autoridades americanas esperavam, o hot money do mundo descobriu ser mais conveniente ir para centros bancários dolarizados offshore. SS: Pode dar um exemplo de como isto funcionou? MH: Em 1989 fui contratado pela firma de gestão de dinheiro Scudder, Stevens and Clark, de Boston, a fim de passar uns meses a organizar um fundo de dívida soberana (sovereign-debt fund) , isto é, um fundo que investisse em títulos de governos do terceiro mundo. Foi o primeiro de tais fundos, e começou aquilo que se tornaria uma torrente de emissões na década de 1990. Mas naquele estágio primitivo a Scudder foi incapaz de encontrar clientes americanos desejosos de colocar US$ 75 milhões numa região em que se haviam queimado gravemente na esteira da insolvência do México em 1982. Por outro lado, aquele evento traumático pressionou as taxas de empréstimo para cima para aproximadamente 45 por cento ao ano em relação a títulos do governo denominados em dólar da Argentina e do Brasil, e a cerca de 25 por cento para os tesobonos a médio prazo denominados em dólar do México. Estas taxas permitiram ao fundo ter mais êxito em encontrar compradores estrangeiros. Incorporada nas Antilhas Holandesas (Dutch Wet Indies) como Sovereign High -Yield Investment Co. N.V., suas acções foram listadas no London Stock Exchange. O subscritor, Merril Lynch, vendeu-os principalmente a famílias argentinas bem conectadas através do seu escritório em Buenos Aires, com o restante tomado principalmente por brasileiros e outros compradores latino-americanos. O seu dinheiro foi investido em títulos de alto rendimento dos seus próprios governos. A ironia era que os pagamentos exorbitantes de juros feito em 1990 eram devidos em grande parte à fuga de capital argentino e a famílias brasileiras a operarem offshore num "fundo ianque". O facto de isto ter sido montado offshore significava que a nenhum investidor americano era permitido comprar as suas acções. Os maiores investidores foram políticos bem informados que compraram do fundo sabendo que os seus bancos centrais pagariam as suas dívidas em dólar apesar dos altos prémios de risco. Enquanto estes oligarcas legais apareciam nas estatísticas dos seus países como "credores de dólares" exploradores, demagogos internos culpavam os ianques, o FMI, o Banco Mundial e banqueiros britânicos por aplicarem austeridade financeiras aos seus países. Ainda que a dívida em dólar da Argentina no princípio da década de 1990 fosse possuída principalmente por argentinos a operarem fora a partir de centros bancários offshore. Os maiores beneficiários do serviço da dívida externa foram os seus próprios capitalistas voláteis, não possuidores de títulos na América do Norte e na Europa. Para a Argentina, um "estrangeiro" era provavelmente um oligarca local a operar de uma conta offshore invisível para o seu governo (o qual era constituído em grande parte por suas próprias famílias). Pode-se encontrar o mesmo fenómeno na Rússia de hoje, onde um "investidor estrangeiro" tende a ser um russo com uma conta offshore a operar a partir de Chipre, da Suíça ou do Lichtenstein, talvez em partenariato com um americano ou outro estrangeiro para camuflagem política. SS: Como actuou o fundo? MH: No seu primeiro ano de operação tornou-se o segundo maior em termos de desempenho mundial (um fundo imobiliário australiano estava em primeiro lugar). Os investidores globais logo entraram em acção pois observaram a oligarquia financeira latino-americana a reciclar o seu próprio capital volátil dolarizado de volta para os seus países de origem via enclaves offshore. Entretanto, o fundo com que estive associado estava limitada a uma duração de apenas cinco anos, porque em 1989 parecia-me que este era todo o espaço de tempo disponível para manter a sucção do rendimento do terceiro mundo até que uma nova crise assomasse. Quando este período de tempo foi ultrapassado, em 1994, os tesobonos do México tornaram-se de tal forma favoritos dos investidores que a sua taxa de juros caiu abaixo dos 10 por cento. O país estava a vender o seu sistema telefónico e outras empresas públicas e os rendimentos das vendas estavam temporariamente a encher as reservas de divisas externas do banco central — foi o último acto da ditadura do PRI no governo antes de perder a presidência. Mas o México balouçou-se à beira do default na crise do peso naquele ano, apenas uma dúzia de anos depois de ter desencadeado a "debt bomb" da América Latina em 1982 ao anunciar que não podia cumprir o serviço da sua dívida externa. A administração Clinton "resgatou" o México, ou melhor, o secretário do Tesouro Robert Rubin resgatou os seus credores. SS: Assim, finalmente, especuladores com títulos em dólar do terceiro mundo perdem. MH: Eles não foram os únicos. O processo envolveu fuga capital a ser transformada numa herança da dívida externa oficial. A Argentina estava mesmo convencida a juntar-se às fileiras do Panamá e da Libéria dolarizando a sua economia. Ao invés de criar crédito interno por si própria incorrendo em défices orçamentais, como os outros países fazem, o seu governo emitiu um enorme volume de títulos pagáveis em dólares. As suas taxas de juros caíram abaixo do nível de 10 por cento pois os investidores nos países credores queriam acreditar que o segredo da solvência monetária fora descoberto. Dólares estrangeiros foram emprestados para financiar políticas internas. Enquanto isso, o declínio nas taxas de juros resultante do aumento na "confiança" na loucura da Argentina proporcionou ricos ganhos de capital para investidores que haviam comprado os títulos a um preço tão baixo que eles rendiam quatro ou cinco vezes mais em retorno. Mas o que é confiança, depois de tudo, senão uma oportunidade para jogar o jogo da confiança — um jogo em que os subscritores financeiros afiaram as suas qualificações durante séculos! O fundo Scudder e outros investidores iniciais venderam os seus títulos para os novos fundos mútuos e outros compradores inexperientes em relação ao risco internacional durante a efervescência dos anos 90, quando todos tentavam superar os retornos dos outros, pouco importando para onde o longo prazo estava a conduzir. Isto promoveu um desnecessário endividamento estrangeiro, cujo colapso hoje ameaça apartar a Argentina para longe dos outros países. Então, em 2002, a pirâmide da dívida entrou em colapso, e os títulos agora mergulharam no fundo. Isto limpou uma porção substancial de "más poupanças" ("bad savings") que eram as contrapartidas contabilísticas destas dívidas más. ALGUMAS ALTERNATIVAS POLÍTICAS SS: Quanto dinheiro nestes centros é fuga de capital e dinheiro de evasão fiscal? MH: A coisa notável é a extensão em que os investidores tem feito uso destes centros legalmente. Ao patrocinar o eurodólar, por exemplo, o governo britânico encorajou a criação de entrepostos para evitar o fisco em algumas das ilhas localizadas no inóspito English Channel e Mar do Norte. Pelo simples acto de registar a propriedade do seu imóvel em uma destas ilhas, permite-se aos proprietários britânicos que evitem pagar impostos sobre ganhos de capital, pois estes não são cobrados aos investidores "estrangeiros". SS: Qual é a diferença entre um esquivador (avoider) fiscal e evasor (evader) fiscal? MH: É legal utilizar as leis existentes para minimizar um passivo fiscal. Um evasor fiscal é alguém que viola a lei fazendo falsas declarações ou envolve-se em complexas operações financeiras que não tem nenhuma função económica excepto evitar pagar impostos. SS: Assim, a lógica britânica era a mesma dos EUA na década de 1960: precisava do dinheiro, sem importar de onde viesse. Isto acabou por tornar mais fácil evitar impostos MH: A lógica era que a libra esterlina precisa de investimento estrangeiro para aguentar sua taxa de câmbio. O efeito principal, entretanto, foi proporcionar favoritismo fiscal para grande investidores internos em oposição aos proprietários de lares ou pequenos investidores que não abriam contas no exterior. Um investidor britânico pode montar uma corporação de fachada nestes enclaves e evitar pagar impostos sobre ganhos de revenda sobre a sua terra e edifícios, acções e títulos ou outros activos. É tudo perfeitamente legal, pois qualquer país tem o direito de cobrar — ou não cobrar — impostos sobre a riqueza, ganhos de capital ou rendimento. Visto que os ganhos de capital tendem a superar o crescimento do rendimento ganho, o papel económico de tais centros offshore torna-se central para a acumulação global. Como a inflação global dos activos ganhou momento durante as década de 1980 e 90, a atractividade de tais centros aumentou proporcionalmente. Isto significa que os economistas dificilmente poderão analisar o crescimento e polarização da riqueza nacional e global sem levar em conta a teia de obrigações e passivos financeiros associada a estes centros. SS: Mas há um crescente revestimento de ilegalidade, não é? MH: Certamente, mas foi fundido nos "invisíveis" na media em que as estatísticas económicas são afectadas, e a teoria económica também para este assunto. O crime é um dos sectores chave para os quais não são feitas estimativas. Ainda que seja talvez o mais líquido, pois ditadores e cleptocratas, ladrões e traficantes de droga receiam amarrar-se aos seus activos de forma visível. As mais novas adições à classe mundial dos rentistas, eles tornaram-se uma fonte de liquidez para as economias de hoje. A Rússia sofreu uma fuga de capitais de US$ 25 mil milhões por ano desde 1990. O seu empréstimo de emergência (bailout loan) do FMI de Agosto de 1997 desapareceu num obscuro banco nas Ilhas do Canal britânicas, de onde foi reenviado para Chipre, Suíça e Estados Unidos. A maior dos empréstimos do FMI para a África e América Latina foi plenamente absorvido pelas fugas de capitais, subsídios estes dados sob o eufemismo de "estabilização da divisa". O que está a ser estabilizado é sobretudo a taxa a que esta fuga de capitais e cambiada por divisas duras (se alguém ainda pode chamar os dólares de divisas duras). SS: Como os governos podem conter este truque para taxar este dinheiro? MH: É o que está a ser debatido na Rússia nestes dias. Parece que a única espécie de imposto que pode ser colectado das multinacionais hoje é o imposto sobre o que é visível, não o que é invisível — isto é, invisível para o estatístico da economia nacional e a repartição de colecta de impostos. Os russos estão a discutir uma medida para cobrar impostos do excesso de lucros aos exportadores de petróleo e minérios. SS: Se examinarmos as folhas de balanço como elas aparecem, os centros bancários offshore surgem como credores líquidos e o resto dos países do mundo com devedores líquidos? MH: Não exactamente. Os "poupadores" que têm contas nestes centros bancários offshore têm direitos sobre eles que, por sua vez, representam os passivos destes enclaves que compensam os seus direitos sobre o resto do mundo. Mas os direitos financeiros possuídos por estes paraísos são possuídos por sua vez pelos seus "poupadores" offshore. O que está faltando nos dados que deveriam estar ali são os direitos destes "poupadores" — os esquivadores fiscais, criminosos e assim por diante — sobre estes paraísos fiscais, classificados em termos de seus países de origem. Estas poupanças sub-reptícias ficam perdidas na linha de "erros e omissões" do FMI. É por isso que as Índias Ocidentais Holandeses, por exemplo, podem possuir dinheiro numa empresa panamenha, a qual possui dinheiro numa empresa da Ilha do Canal, e assim por diante. Os requerentes (claimants) finais do hot-money são difíceis de identificar. Entradas de depósitos nestes enclaves têm a sua contrapartida na folha de balanço no seu próprio crescente endividamento para com esquivadores de impostos e fujões na Europa, América do Norte e do Sul, Ásia e África. Mas as estatísticas são silenciosas sobre quem são realmente estes "poupadores" invisíveis e onde eles realmente residem. Um exportador argentino ou russo vende a preço facturado ficticiamente baixo, pedindo ao comprador que deposite a diferença numa conta bancária offshore. É desnecessário dizer que o argentino ou russo não declarará este haver, assim ele não aparece nas contas oficiais. Mas existe na realidade. É por isso que as dívidas relatadas do mundo excedem as poupanças locais por uma margem de "erros e omissões". SS: Como exactamente funciona esta facturação falsa? MH: De duas maneiras. A mais simples é os importadores dizerem que pagam mais por importações do que o seu verdadeiro preço económico. Isto é o que fazem as companhias de petróleo quando apreçam o petróleo bruto tão alto para as suas refinarias que estas não têm margem para relatar um lucro, década após década. A imagem espelho desta fraude ocorre quando os exportadores afirmar receber menos do que eles realmente são pagos. A margem é o que eles são capazes de roubar. O comprador tipicamente pagar a diferença para uma conta "privada" em um dos centros bancários offshore, facilitados por um dos bancos americanos, britânicos ou canadianos montado para este fim. Este é o significado da "privacidade" bancária. É como se exportadores russos de petróleo, alumínio e outras matérias-primas ocultassem o seu rendimento real do governo russo. Isto explica a emergência de tantos multi-bilionários pós-soviéticos que se beneficiam de "enriquecimento inexplicado". SS: Isto não quer dizer que o governo russo ainda colecte a maior parte dos seus impostos com o petróleo e outras exportações de matérias-primas? MH: Sim, mais deixa de aplicar imposto ao rendimento real. Se fizesse isto, o sr. Khodorkovsky e outros cleptocratas não teriam subitamente ascendido para se juntarem às fileiras dos indivíduos mais ricos do mundo em apenas uma única década, e não estaria agora sob processo por evasão fiscal criminosa. É significativo que a imprensa financeira no Ocidente escreva editoriais angustiados a acusar isto de representar nada menos que fascismo com camisas castanhas, nacionalismo e totalitarismo. Falcões da administração Bush, como o secretário de Estado Powell, exprimem publicamente a sua preocupação de que isto ameace os próprios fundamentos da "empresa privadas". Isto mostra quão pouco eles pensam em punir a evasão fiscal nos seus próprios países. SS: Suponho que iremos cobrir estas maquinações com maior pormenor na nossa próxima entrevista sobre a Rússia após a sua eleição presidencial de 14 de Março. Retornando ao tópico dos centros bancários offshore, está o sr. a descrever uma técnica que foi desenvolvida simplesmente por indivíduos, ou foi institucionalizada num plano mais elevado, em escala mundial? MH: As maiores firmas de contabilidade e de advocacia da América do Norte e da Europa obtêm uma proporção crescente do seu rendimento ministrando conselhos a companhias que procuram utilizar estas tácticas. Os utilizadores primários são gestores de dinheiro e corporações importantes a fim de esconder os seus lucros (ou perdas, no caso da Enron e da Parmalat) da vigilância das autoridades nos seus próprios países. Nos anos 1990, a Enron, a Parmalat e outros gigantes corporativos criminosos foram capazes de organizar as maiores fraudes financeiras da história utilizando finanças estruturadas envolvendo paraísos hot-money. SS: Não há uma lei americana contra arranjar uma prática de negócios complexos unicamente para o propósito de evadir o fisco? MH: A lei está realmente nos livros, e os IRS queixou-se especificamente de que a firma KPMG organizou esquemas sistemáticos de evasão fiscal. Mas os neoliberais colocaram os seus próprios administradores ideológicos nestes agências, homens que se vangloriaram para mim do facto de que simplesmente se recusam a regular para "matar a besta", isto é, o governo, o qual é suposta ser o cérebro guiador da economia. A sua não-acção corrompeu o sistema legal e regulamentar nacional, desactivando-o. O poder está a ser exercido pelos contribuidores da campanha cuja riqueza convenceu os políticos a darem aos evasores fiscais o direito de votar contra qualquer agência regulamentar que se mostre demasiado consciente quanto à aplicação da lei, acima de tudo do código fiscal. SS: O que há quanto ao Procurador-Geral de Nova York, Eliot Spitzer? MH: Ele obviamente reconhece o que está em andamento, e parece ter ficado espantado ao descobrir quão longe foi o apodrecimento. O que ele descobriu quando apresentou acusações de crime contra a Arthur Andersen no caso Enron foi que todas as grandes firmas de contabilidade estavam empenhadas nas mesmas práticas fraudulentas. Isto criou um problema prático para ele. Iria ele fechar todas as firmas de contabilidade aplicando-lhes a lei de cabo a rabo? Se ele tivesse feito isto, quem teria auditado os livros das companhias dos EUA? Isto teria esmagado o mercado de acções e toda a economia. Assim ele contentou-se em penalizar os bancos e as firmas financeiras e de contabilidade numa muito pequena porção dos seus ganhos, deixando seus sócios com a sua confortável aposentadoria conquistada e fazendo-os prometer parar de infringir a lei no futuro. Por outro lado, penso que mesmo que ele tivesse fechado estas firmas — e, lembro, trabalhei para a Arthur Andersen e descobri que era inteiramente venal já na década de 1960 — o sistema ter-se-ia curado a si próprio quase da noite para o dia. As firmas existentes como tais teriam sido varridas e muitos dos seus principais sócios teriam ido para a cadeia — provavelmente não mais do que umas poucas centenas — ou pelo menos teriam perdido as suas aposentadorias com pagamentos de subornos. Mas a maior parte destes contabilistas remanescentes ter-se-ia reunido para criar novas firmas, livres das manchas de corrupção que caracterizaram a Deloitte Touche no caso Parmalat, a KPMG por seus esquema de evasão fiscal, e outras firmas de contabilidade por aí abaixo, SS: Quão profundamente os problemas podem ser investigados? MH: O caminho que conduziu a este estado de coisas foi aberto no fim da Segunda Guerra Mundial. Os diplomatas americanos pressionaram o Fundo Monetário Internacional pela livre movimentação de capitais, num tempo em que era muito claro que a maior parte dos movimentos de fugas de capital seria em direcção ao dólar, para fora das economias que estavam regulamentadas. Eufemizado como "reforma económica" e "liberdade de escolha", o movimento em direcção ao descontrole financeiro abriu o caminho para o desenvolvimento de paraísos offshore. Isto fazia parte do viés fatal construído dentro do DNA do sistema Bretton Woods do pós-guerra. O governo dos EUA permaneceu no controle, e como expliquei anteriormente, quando a Guerra do Vietnam empurrou a balança de pagamentos para o défice, o governo encorajou os grandes bancos a montarem ramos nestes enclaves ilhéus a fim de actuarem como receptadores que facilitassem o roubo global, a fraude global e outras actividades criminosas globais. Tem sido através das suas operações de utilização fácil que o mundo não-criminoso — o mundo de homens e mulheres honestos, indústria, comércio e mesmo governos soberanos — se tem tornado cada vez mais endividado para com os delinquentes, assim como os contribuintes estão cada vez mais endividados com para com os esquivadores de impostos. Grande parte da dívida externa líquida dos EUA, assim como aquela de países como a Argentina, é possuída por estes centros de capital volátil. Isto já se tornou o significado de "globalização" na sua dimensão financeira. Indiquei acima que as entradas de depósitos nestes paraíso são relevadas nas estatísticas oficiais de outros países como "erros e omissões". O mais importante fenómeno económico do mundo que determina as taxas de câmbio hoje foi relegado para a economia "negra" não observável — não apenas o crime, mas o que está a tornar-se a massa dominante de riqueza corporativa e pessoal. É mais invisível hoje do que nunca, a fim de evitar os olhos de acusadores e autoridades fiscais. É notável que os neoliberais louvem este fenómeno ao invés de denunciá-lo. O resultado tem sido criar uma situação em que, se alguém tem de possuir terra, outros activos tangíveis, ou títulos financeiros, o melhor caminho para evitar os impostos ou a tomada é registá-los em nome de procuradores offshore. O passo seguinte destas entidades offshore é emprestar este dinheiro de volta para si próprio, cobrando suficientes juros para absorver o anterior rendimento imponível. Operadores suficientemente grandes para montarem a sua própria companhia de seguros podem tratar como perdas o remanescente do seu rendimento como pagamentos de seguros fiscalmente dedutíveis à sua entidade offshore criada para este fim, juntamente com os habituais encargos de desnatamento por taxas administrativas para os proprietários e gestores seniors. Operadores financeiramente refinados enviam o seu dinheiro offshore e então tomam-no emprestado de volta, pagando suficientes juros, seguros e taxas administrativas para si próprios a fim de absorverem os seus rendimentos e torná-los assim livres de impostos. Estes pagamentos gastos consigo próprios aparecem no rendimento nacional e nas estatísticas fiscais como um custo de fazer negócios, ao passo que as estatísticas de balança de pagamentos mostram-nos como um fluxo internacional por "serviços" sob a rubrica de "invisíveis". Assim as estatísticas tornam-se cada vez mais ficcionais. SS: O sr. descreveu como o crescimento destes centros tem levado as estatísticas económicas a perderem o seu valor. Como pode a economia ser analisada e quantificada sob tais condições? MH: Os paraísos financeiros ajudam os rendimentos e os ganhos de capital a desaparecerem das estatísticas das economias nacionais como fuga de capital, só para reaparecerem como dívidas possuídas por economias vitimizadas por operadores "estrangeiros" fora destes enclaves. As suas transações aparecem na balança de pagamentos como "erros e omissões". A maior parte dos economistas sabe que isto é um eufemismo para "movimentos de capital a curto prazo", expressão que é ela própria um eufemismo para fugas de capitais e evasão fiscal. A percepção básica é que aquilo que alguém pode evitar declarar às autoridades nacionais não será regulamentado, imponível ou processado. A estratégia de acordo com estas linhas reflecte décadas de lobbying das mais ricas companhias e indivíduos do mundo no sentido de desmontar a capacidade dos seus governos para aplicar-lhes impostos. Firmas de contabilidade, gabinetes de juristas e bancos globais ajudam-nos utilizando "finança estruturada" para esconder seu rendimento e riqueza — bem como suas dívidas e fraudes financeiras. Quanto mais desonesto o cliente, maior a taxa que pode ser cobrada para que o conselho a ser orquestrado garanta privacidade. Numa sociedade onde o crime rende mais do que a maior parte das profissões honestas, a perícia financeira e bancária é de contratar. Os peritos irão trabalhar satisfeitos para a Enron e a Parmalat, salvando a sua consciência com a crença de que tudo isto é parte do mercado livre que promove a civilização e deixa o comunismo à beira da estrada na luta da economia mundial pela existência entre sistemas competidores. A simbiose entre centros bancários offshore e riqueza oligárquica, cleptocrática e criminosa pode ser detectada nos processos que têm embelezado as primeiras páginas da imprensa internacional nos últimos anos. As maiores bancarrotas em anos recentes envolveram maquinações através de tais centros. No caso da bancarrota da Parmalat, a defesa legal da parte dos auditores da companhia, Deloitte and Touche, é que eles não tinha maneira razoável de saber que os US$ 4 mil milhões em alegados depósitos numa conta offshore do Bank of America realmente não existiam. Outros personagens deste universo predatório do capital volátil são as entidades offshore criadas pela Arthur Andersen e pelo Citibank para a Enron, os renomados bancos suíços por servirem Idi Amin e outros senhores da guerra, e o Bank of New York e seus irmãos que ajudaram os oligarcas da Rússia a roubarem US$ 250 mil milhões na década de 1990. Uma vez que estes truques fiscal são explicados em pormenor, os leitores atentos podem reconhecer que o que está a ser descrito é como as multinacionais de hoje são tipicamente estruturadas para extrair rendimentos e minimizar (isto é, evitar) impostos. Economistas desde John Maynard Keynes tem utilizado a palavras "fuga" ("leakage") para descrever fundos retirados da correntes de rendimentos internos. O termo implica que o dinheiro está a ser perdido, e naturalmente é perdido para o colector dos impostos. Mas ele não desaparece simplesmente. Colocado nos centros anti-governo do mundo, o capital em fuga impõe-se como um poder credor que está a endividar a América do Norte, Europa, Ásia e África, sugando o seu excedente financeiro de maneiras que permanecem invisíveis para a maior parte dos estatísticos e economistas, políticos e eleitores. SS: O sr. pinta um quadro desencorajador. O que aconteceria se se tentasse cobrar impostos sobre o rendimentos das corporações, das finanças e tudo o mais, se as transações com estas ilhas fossem simplesmente encerradas. MH: Uma opção está na verdade a ser forçadas. Se estes paraísos da trapaça fiscal não forem fechados, as únicas pessoas deixadas para os impostos serão a classe média e os empregados. As companhias agora preenchem dois conjuntos de contas anuais. Um para os seus accionistas, e outro para o colector dos impostos. A conta de impostos não mostra lucro, porque as companhias não os querem pagar. O relatório para os accionistas mostra um lucro máximo, porque as companhias querem promover o preço das suas acções. Os votantes têm eleito políticos cujas campanhas eleitorais são pagas pelos lobbies que são contratados para mobilizar apoio a esta política, enquanto as direcções académicas são estimuladas a contratar loucos bem intencionados ou "idiotas úteis" para ensinar esta filosofia anti-governo como representativa de "reforma" positiva ao invés de pintá-la como rematado parasitismo. O público está a ser enganado de duas formas. Antes de tudo, aos governos são dados retornos que mostram lucros a contraírem-se, através de contabilidade artificial que se torna a base para as estatísticas oficiais. Enquanto isso, os accionistas estão a ser ministradas de estórias de altos lucros fictícios, pelo menos nos casos da Enron e da Parmalat. Os clientes deste mundo desta ilha flutuante mundial utilizam um sistema que tem sido posto em prática pelos pilares da integridade nos negócios representativos do núcleo da economia nuclear, não meramente um grupo do submundo periférico. Estes enclaves pertencem ao centro da análise económica, ainda que eles habitualmente sejam tratados como uma anomalia e não como um órgão integral da acumulação de riqueza moderna. SS: Como podem estes centros offshore ser fechados? A lei diz que não se pode punir ou penalizar pessoas que seguem as leis que vigoram no momento. Não se pode estabelecer penalidades retroactivamente. MH: Não é preciso isso. As leis contra fraude, roubo e evasão fiscal tem estado nos livros desde há muitos anos, embora muitas destas leis não tenham sido aplicadas seriamente. Uma das leis mais fáceis de aplicar é o princípio do "enriquecimento inexplicado". Isto é, deste modo, como as grandes fortunas do mundo foram criadas — é o que Putin está a aplicar contra o sr. Khodorkovsky. Os bancos nos Estados Unidos, Canadá, Europa e Ásia concordariam em não reconhecer transferências de depósitos a partir destes centros. As companhias e as casas de corretagem recusariam pagar dividendos endereçados a eles. Os países estabeleceriam regras para legitimar a propriedades destes depósitos, acções corporativos ou outros direitos financeiros. Uma pergunta padrão seria sem dúvida perguntar como alguém chegou a obter haveres nestes centros. Foi esta riqueza obtida a partir de um rendimento normal? Se não, como? Uma solução mais ampla seria simplesmente não reconhecer direitos de bancos e credores destes centros. Isto seria um começo de repudio das dívidas más (bad debts) mundiais. SS: Isto teria ser feito subitamente, com certeza. Será melhor deixar este contexto mais amplo para uma futura entrevista. _______________ [NT]: Hot money: Expressão que designa as aplicações de curtíssimo prazo em títulos ou em divisas atraídas por taxas de juros elevadas ou diferenças cambiais significativas. Tais apliações podem deslocar-se rapidamente de um mercado para outro e provocar grandes turbulências numa economia nacional, tanto por ocasião da entrada como da saída destas massas de recursos financeiros. [*] O professor Michel Hudson é economista financeiro independente e actua na Wall Street. Depois de trabalhar como economista especializado em balança de pagamentos para o Chase Manhattan Bank e para a Arthur Anderson na década de 1960, lecionou finanças internacionais na New School em Nova York. Actualmente é Distinguished Professor of Economics na Universidade do Missouri (Kansas City). Publicou numerosos trabalhos acerca da dominância financeira dos EUA. Também foi conselheiro económico dos governos canadiano, mexicano, russo e americano. Seus livros incluem Trade, Development, and Foreign Debt (Pluto, 1992, 2 vols.). É autor do livro Super Imperialism — The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance (Pluto Press, 2003, 425 p., ISBN 0-7453-1989-0). O seu sítio web está em http://michael-hudson.com/indexbody.html . Do mesmo autor resistir.info publicou também Irá a Europa sofrer da síndroma suíça? Standard Schaefer é jornalista económico independente, historiador, crítico literário, poeta e escritor de contos. Ensina no Otis College of Art and Design. É editor de não-ficção da New Review of Literature . Seu email é ssschaefer@earthlink.net . © 2004 Hudson and Schaefer, from book-in-progress. For fair use only/ pour usage équitable seulement. O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/articles/HUD403A.html . Tradução de JF. Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info .
30/Mar/04

Via: http://www.resistir.info/eua/offshore_banks.html

sábado, 19 de abril de 2008

Crise Sistémica Global

Crise sistémica global: Quatro grandes tendências para o periodo 2008-2013

por GEAB [*]

Ao aproximar-se do cerne da crise sistémica global que, segundo o LEAP/E2020, corresponderá ao segundo semestre de 2008, doravante já é possível apreender melhor as grandes tendências que definirão as taxas de câmbio, o comércio mundial e as dinâmicas regionais num prazo de cinco anos. Com efeito, algumas das principais características da fase dita de "decantação" da crise [1] começam a delinear-se. O LEAP/E2020 decidiu portanto apresentar neste GEAB Nº 24 suas primeiras antecipações sobre estas grandes tendências no horizonte 2011/2013. Estas antecipações são certamente úteis para os investidores individuais que desejarem ter uma certa visibilidade a médio prazo. Elas podem igualmente ser muito particularmente pertinentes para as empresas exportadores e as autoridades económicas e financeiras que têm necessidade de tal visibilidade para elaborar suas decisões estratégicas, num momento em que se afunda o conjunto das referências e das certezas que fundamentaram a economia e as finanças mundiais destas últimas décadas. Nestas últimas semanas foi possível constatar até que ponto os operadores económicos e financeiros do planeta estão desnorteados enquanto as instituições encarregadas de regular os mercados ou de enquadrar a evolução económica mundial vêm a sua impotência manifestar-se a plena luz. Neste GEAB Nº 24 desenvolvemos quatro tendências particularmente representativas da fase de impacto da crise sistémica global tais como se vão revelar entre meados de 2008 e o horizonte 2011/2013. Pela primeira vez a nossa equipe começa a estar em condições de dar indicações precisas sobre as tendências a 3/5 anos. Elas são completadas nomeadamente por "Recomendações estratégicas" neste número do GlobalEurope Anticipation Bulletin.
Crise financeira mundial – Poupadores e investidores capturados na armadilha com US$10.000 mil milhões de "activos fantasrmas"
Crise dos activos denominados em US dólares – Fim de 2008: A Reserva Federal dos EUA e sua rede de "Primary Dealers" em luta pela sua sobrevivência institucional e financeira.
Crise das taxas de câmbio- Horizonte 2011/2013: Perturbação duradoura da hierarquia mundial das taxas de câmbio.
Crise social mundial – Das revoltas da fome aos 25 milhões de desempregados da Muito Grande Depressão estado-unidense
Cada uma desta crises sectoriais é em simultâneo a ilustração da amplitude histórica da crise sistémica global e a confirmação de que nós não estamos senão no princípio da sua fase de impacto uma vez que as protecções desaparecem umas após as outras anunciando automaticamente novos agravamentos da situação. É o processo "em espiral", como descreveu o LEAP/E2020 nos números anteriores do GEAB, característico desta crise sistémica global. Para este comunicado público, o LEAP/E2020 escolheu apresentar uma parte do primeiro ponto sobre a Crise financeira mundial: Poupadores e investidores capturados na armadilha com US$10.000 mil milhões de "activos fantasmas". Crise financeira mundial – Poupadores e investidores capturados na armadilha com US$10.000 mil milhões de "activos fantasrmas" Se o vosso banqueiro vos induziu a investir nos US$10.000 mil milhões de activos fantasmas que assombram o planeta financeiro, então provavelmente já perdeu tudo mesmo que ainda não o saiba [2] . E não são os responsáveis das finanças do G7 e da assembleia geral do FMI, reunida em 11, 12 e 13 de Abril último, que vão alterar grande coisa. Todos eles estão perfeitamente impotentes face à crise em curso. Com o pano de fundo da redução do pessoal e da venda das suas reservas de ouro a fim de colmatar o seu défice, o FMI encarna doravante o naufrágio das instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial para regular a economia do planeta. As conclusões dos trabalhos das reuniões de meados de Abril ilustram aliás a incapacidade de agir em conjunto dos actores agrupados no seio do FMI e dos seus diferentes ramos: de um lado, as instituições públicas desejam melhor enquadrar as actividades bancárias para evitar futuras catástrofes financeiras como aquelas que agora conhecemos: de outro, os bancos preferem contentar-se com promessas de melhores comportamentos. E o único resultado tangível é a inacção a curto e médio prazo: a crise actual continuará a agravar-se enquanto os debates prosseguirão no FMI. Aliás, mesmo em termos conceptuais, o FMI está ultrapassado. Assim, segundo nossos peritos, o montante de 1.000 mil milhões de dólares de perdas financeiras acumuladas pela crise actual é irrisório [3] . São da ordem dos 10.000 mil milhões de dólares [4] as perdas que doravante será preciso aguardar nos próximos dois anos [5] . Dito de outra forma, esperamos que vários grandes bancos mundiais sejam engolidos neste redemoinho assim como numerosas empresas com modelos económicos frágeis ou demasiado dependentes do consumidor americano [6] .

Portanto, e o LEAP/E2020 deseja mais uma vez insistir neste ponto, a natureza do problema financeiro actual é ao mesmo tempo muito simples de definir e muito difícil de apreender correctamente: há actualmente no planeta de 10 milhões de milhões de dólares [7] que não têm senão uma existência fictícia; e os grandes bancos vão doravante tentar desembaraçarem-se deles a preço de liquidação a fim de limitar as suas perdas [8] . Mas mesmo a estes preços de liquidação ainda serão armadilhas pois estes activos já não têm qualquer valor real e não recuperarão qualquer valor [9] . Eles são como "activos fantasmas" ("ghost assets") que não se chegam a "encarnar" nos activos reais. O essencial destes "activos fantasmas" é compostos por empréstimos hipotecários estado-unidenses, por dólares dos EUA, Títulos do Tesouro dos EUA e em geral activos denominados na divisa americana, mas também activos denominados em libras esterlinas [10] . Eles foram criados ex-nihilo na euforia financeira destes últimos dez anos pelos "aprendizes de feiticeiros" da Wall Street, da City e das grandes praças financeiras mundiais [11] . Lembrem-se! Foi o período já remoto em que todo o mundo se extasiava com o "milagre" da nova finança que permitia criar uma "economia financeira" igual a 1000 vezes a economia mundial real [12] . Pois bem, desde há alguns meses, os felizes beneficiários destas riquezas infinitas virtuais tentam em vão encontrar-lhes uma encarnação bem tangível [13] . Ora, o conjunto dos mercados de activos afunda-se ou dá lugar a bolhas tão frágeis como efémeras: imobiliário, energia, títulos do tesouro americano, dólares, acções, alimentar, ... E estas imensas massas financeiras virtuais giram a uma velocidade crescente ao redor do planeta à procura de um investimento rentável, de uma encarnação durável... em vão. Este fenómeno cria movimentos tectónicos de altas e baixas rápidas (algumas semanas) de bolhas de activos (quando nestas últimas décadas as bolhas duravam pelo menos alguns anos), criando de facto uma alta generalizada dos preços a aproximando-se a cada dia mais um pouco da sua lógica última: a inflação galopante... quando unicamente o medo de ver o valor de todos os activos afundar, inclusive a moeda de referência, reina no assunto. As "fabulosas" reservas em divisas ou Títulos do Tesouro americano da China, do Japão, do Reino Unido e outros fazem parte desta coorte de "activos fantamas". E eles vão assombrar durante numerosos anos os balanços dos bancos, as perdas dos investidores e os pesadelos dos banqueiros centrais. A forma colectiva favorita destes "activos fantasmas", quando eles não chegam a se encarnar, chama-se inflação. Assim, para o LEAP/E2020, a inflação real nos Estados Unidos (incluindo alimentação, energia, ...) vai ultrapassar os 10% em média anual a partir do segundo semestre de 2008 [14] ; ela ultrapassará os 5% na Europa; e aproximar-se-á dos 20% na China. Nos países em desenvolvimento, muito ligados às variações da divisa americana, ela vai literalmente "explodir" sob múltiplos constrangimentos: energia, alimentação, debilidades das divisas... (artigo completo no GEAB Nº 24 – por assinatura).
15/Abril/2008
NOTAS (1) Segundo o sequenciamento da crise estabelecido pelo LEAP/E2020 no GEAB Nº 5. Acerca do sequenciamento da crise sistémica global, ver também o GEAB Nº 6 e Nº 18 . (2) Os exemplos de poupadores capturados pelos seus próprios bancos na armadilha dos investimentos "sem risco" multiplicam-se. Fonte: New York Times, 13/04/2008 (3) Fontes: Bloomberg, 31/03/2008 ; e Turkish Daily News, 10/04/2008 (4) O LEAP/E2020 utiliza voluntariamente os "milliards" como unidade de referência no que se refere aos montantes imensos em jogo nos mercados mundiais pois a palavra "trillion", muito utilizada na imprensa financeira, tem um valor variável conforme as culturas. Nos Estados Unidos, no Reino Unidos e no Brasil, nomeadamente, ela designa o número 10 12 (10 elevado a 12), ao passo que no resto do mundo ela representa o número 10 18 . Fonte: Wikipedia. A crise actual quase poderia ser explicada por uma infeliz incompreensão: o resto do mundo acreditava que a Wall Street lhes dava em garantia "grandes" triliões (10 18 ) de activos em US dólar quando de facto se tratava de "pequenos" triliões (10 12 ), ou seja, um milhão de vezes menos. Eis como alimentar uma crise sistémica global! Afinal das contas, a História está em vias arrumar a questão entre os defensores da escala longa e da escala curta (fonte: Wikipedia ), entre aqueles que vêm mais milliards num trilião e aqueles que vêm menos. (5) Para aqueles que se espantam com semelhante número, permitimo-nos remete-los às cifras inicias da crise das subprimes que, no Verão de 2007, há apenas nove meses, previam perdas da ordem de no máximo US$100 mil milhões. Em menos de um ano, a quantificação "oficial" foi pois multiplicada por 10 em relação àquela adiantada à partida por instituições que negavam a própria possibilidade de uma tal crise. É tempo de todos os actores financeiros afectados começarem a compreender que no período que vem aí o pior é geralmente mais provável do que o melhor, ao contrário destes últimos dez anos. (6) O qual será a grande vítima desta crise, como explicado nos números anteriores do GEAB. (7) Com mais de 45.000 mil milhões de CDS (Credit Default Swap) (ver GEAB N°19 ) que se depreciam dia após dia, não se trata, se se tratasse apenas destes activos, senão de uma baixa de 25% do seu valor. Para o LEAP/E2020, estes 10.000 mil milhões de perdes são portanto uma estimativa muito conservadora. Aliás, a recente venda pelo Citigroupo de aproximadamente 12 mil milhões de dólares de activos financeiros degradados a 90 centavos de dólar, com uma garantia para o comprador de que o Citibank assumirá até 20% de baixa suplementar dos valor dos activos cedidos (ou seja, uma antecipação de baixa de preço que vai até 70 centavos de dólar) ilustra o fenómeno: já 30% de baixa sobre estes activos financeiros do primeiro banco americano. E à luz dos últimos meses, seria preciso ser bem ingénuo para acreditar que o Citgroup mostrou a "verdade". Para um número crescente de operadores, e é isto que explica a paragem pura e simples dos mercados dos produtos financeiros derivados, estes activos poderiam não valer senão 10 a 30 centavos de dólar dentro de alguns meses. Fonte: Reuters, 09/04/2008 (8) Após o Citigroup, é o Deutsche Bank e a Goldman Sachs que começam a liquidar seus activos duvidosos. Fonte: Reuters, MarketWatch/DowJones, 14/04/2008 (9) A ler: "Banks: Bleeding value and Hiding Desperation", Financial Sense, 24/03/2008 (10) Desde há dois anos, em várias ocasiões, a equipe de investigadores do LEAP/E2020 preveniu que a divisa britânica iria entrar em colapso em relação às principais divisas mundiais excepto o dólar americano e que a economia britânica, muito fortemente dependente da economia americana por um lado e das finanças internacionais por outro, iria ser aspirada na crise sistémica global que afecta particularmente estes dois componentes da economia mundial. Doravante já é uma evidência, mesmo para as autoridades britânicas, que a libra e a economia britânica estão em queda livre. Mas é só nos mês que vem que o impacto negativo do colapso dos activos denominados em libras esterlinas irá acumular-se com aquele dos activos denominados em dólares americanos. Em Hong-Kong e nos países escandinavos, países duplamente expostos, o choque será portanto ainda mais rude. (11) A ler: um artigo muito interessante do Institutionnal Risk Analyst de 14/04/2008 que ilustra como os "activos fantasmas" pululam nos balanços dos estabelecimentos financeiros. (12) É sempre edificante consultar as doutas análises das instituições que supostamente regulam a evolução da economia mundial ou regional, como o prova esta contribuição entusiasta de 2005 do Banco Central Europeu referente à evolução dos mercados financeiros no horizonte de 2015. Fonte: BCE, 28/10/2005 (13) Os próprios responsáveis dos institutos internacionais de contabilidade reconhecem que as regras contabilísticas para todos os activos fora do balanço dos bancos (estes mesmos que geraram o crescimento financeiro do último decénio) estão irremediavelmente rompidos. Esta confissão surpreendente da partes dos principais contabilistas mundiais significa em linguagem clara que já ninguém tem a menor ideia do que valem todos estes activos. Fonte: Financial Times, 09/04/2008 (14) A Ásia agora exporta sua inflação para os Estados Unidos.
Fonte: New York Times, 08/04/2008 [*]
GlobalEurope Anticipation Bulletin
O original encontra-se em http://www.leap2020.eu/
Este comunicado encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A Única Economia Viável

István Mészáros

1.
Outrora, o modo de produção capitalista representou um grande avanço sobre todos os seus precedentes, por mais problemático e na verdade destrutivo que este avanço histórico acabasse – e tinha de acabar – por se tornar. Ao romper a há muito prevalecente mas constrangedora ligação directa entre a utilização humana e a produção, e ao substituí-la pela relação mercadoria, o capital abriu possibilidades encobertas de expansão aparentemente irresistível para as quais — do ponto de vista do sistema do capital e das suas personificações — não podia haver limites concebíveis. É que a paradoxal e em última análise insustentável determinação intrínseca do sistema produtivo do capital é que os seus produtos mercantilizados "não são valores de uso para os seus proprietários e são valor de uso para os seus não-proprietários. Consequentemente todos eles devem mudar de mãos… Portanto as mercadorias devem ser realizadas como valores antes que possam ser realizadas como valores de uso" (1).
Esta auto-contraditória determinação interna do sistema, que impõe a brutal submissão das necessidades humanas à necessidade alienante da expansão do capital, é o que remove a possibilidade do controle racional completo desta ordem produtiva dinâmica. Isto traz consigo perigosas e potencialmente catastróficas consequências no longo prazo, transformando no final um grande poder positivo de desenvolvimento económico, antes totalmente inimaginável, numa devastadora negatividade, na ausência total da necessária contenção reprodutiva.
O que é sistematicamente ignorado — e deve ser ignorado, devido aos inalteráveis imperativos fetichísticos e direitos adquiridos do próprio sistema do capital — é o facto de que, sem escapatórias, nós vivemos num mundo finito, com os seus literalmente vitais limites objectivos. Durante um longo tempo da história humana, incluindo vários séculos de desenvolvimentos capitalistas, aqueles limites puderam ser — como na verdade foram — ignorados com relativa segurança. Contudo, logo que eles se manifestam, como enfaticamente devem fazê-lo na nossa época histórica irreversível, nenhum sistema irracional e devastador, não importa quão dinâmico (de facto, quanto mais dinâmico pior), pode escapar às consequências. Ele pode apenas não levá-las em consideração, por algum tempo, reorientando-se para uma cínica justificação do imperativo – cada vez mais abertamente destrutivo - da auto-preservação do sistema a todo custo: pregando a visão do "não há alternativa", e neste espírito varrendo para o lado e, sempre que necessário, suprimindo brutalmente mesmo os mais óbvios sinais de advertência que anunciam um futuro insustentável.
A teorização falsa é a consequência necessária desta objectiva determinação estrutural desequilibrada e da dominação do valor de uso pelo valor de troca, não só sob as mais absurdas e cegas condições apologéticas do capitalismo contemporâneo como também no período clássico da economia política burguesa, no tempo da ascensão histórica do sistema do capital. Isto acontece porque sob o domínio do capital uma produção ficticiamente ilimitada deve ser perseguida a todo custo, assim como justificada teoricamente como sendo a única recomendável. Tal perseguição é imperativa mesmo se não puder haver qualquer garantia de que: (1) a "mudança de mãos" requerida e sustentável das mercadorias fornecidas realmente se verificará no mercado idealizado (graças à misteriosa benevolência da ainda mais misteriosa "mão invisível" de Adam Smith); e (2) que as condições materiais objectivas para produzir a projectada oferta ilimitada — e humanamente ilimitável, uma vez que as sua determinação primária divorciou-se da necessidade e do uso — de mercadorias possa se assegurada para sempre, pouco importando o impacto destrutivo do modo de reprodução metabólica social do capital sobre a natureza.
A ideal adequabilidade do mercado para rectificar o inalterável defeito estrutural indicado no ponto (1) acima são gratuitas reflexões posteriores, que trazem consigo muitas suposições arbitrárias e projecções regulativas que não podem ser cumpridas. A sóbria realidade subjacente ao mercado, como cura para essas reflexões posteriores, é um conjunto de relações de poder insuperavelmente adversas, tendentes à dominação monopolista e à intensificação dos antagonismos do sistema. Da mesma forma, o grave defeito estrutural da perseguição ilimitada da expansão do capital — idealizando o "crescimento" como um fim em si mesmo — como salientado no ponto (2) acima, é complementado por uma igualmente fictícia reflexão posterior quando tem de ser admitido que algum remédio pode ser recomendável. E o remédio então projectado — como uma alternativa para o colapso do sistema dentro da irredimível negatividade do destino de "estado estacionário" teorizado pela economia política burguesa no século XIX — é simplesmente a ansiosa advocacia do tornar a distribuição "mais equitativa" (e através disso menos sujeita a conflitos) enquanto se deixa o sistema de produção tal como está. Esta proposta, mesmo se pudesse ser implementada, o que naturalmente não pode ser — devido às fundamentais determinações hierárquico-estruturais da própria ordem social do capital — não poderia resolver qualquer dos graves problemas da produção sobre os quais também se baseiam as contradições inultrapassáveis do incurável sistema de distribuição do capital.
Um dos principais representantes do pensamento liberal, John Stuart Mill, é autêntico na sua preocupação acerca do "estado estacionário" do futuro, assim como é irremediavelmente irreal no seu remédio para o mesmo. Pois ele pode apenas oferecer esperanças ocas na sua discussão deste problema, o qual é absolutamente intratável do ponto de vista do capital. Ele escreve que "Eu sinceramente espero, para o bem da posteridade, que eles ficarão satisfeitos em estarem estacionários, muito antes de a necessidade os obrigar a isso" [2]. Deste modo, o discurso de Mill resume-se a não mais do que pregação paternalista, porque ele apenas pode reconhecer, em sintonia com a sua aceitação do diagnóstico malthusiano, as dificuldades decorrentes do crescimento da população, mas nenhuma das contradições da ordem reprodutiva do capital. Sua auto-complacência burguesa é claramente visível, despojando as suas análises e intenções reformadoras paternalistas de toda a substância. Mill assevera peremptoriamente que "É apenas nos países atrasados do mundo que o aumento da produção ainda é importante: naqueles mais avançados, o que é economicamente necessário é uma melhor distribuição, para a qual um meio indispensável é uma contenção mais estrita da população" [3]. Mesmo a sua ideia de "melhor distribuição" é irremediavelmente irreal. Pois o que Mill possivelmente não pode reconhecer (ou admitir) é que o aspecto de importância esmagadora na distribuição é a intocável distribuição exclusiva dos meios de produção para a classe capitalista. Compreensivelmente, portanto, sobre uma tal premissa operativa da ordem social prevalece sempre um sentimento paternalista de superioridade no sentido de que não se pode esperar qualquer solução "até que as melhores mentes tenham êxito em educar as outras" [4] , de modo a que estas aceitem a contenção da população e uma "melhor distribuição" que supostamente decorreria de tal contenção. Assim, o povo deveria esquecer tudo acerca de mudar as destrutivas determinações estruturais da ordem social metabólica estabelecida que inexoravelmente conduz a sociedade em direcção a um estado estacionário estagnado. No discurso de Mill, a utopia do milénio capitalista, com o seu estado estacionário que se pode manter, será trazido à existência graças aos bons serviços das iluminadas "melhores mentes" liberais. E então, em tanto quanto concerne às determinações estruturais da ordem social reprodutiva que está estabelecida, tudo poderá ficar como antes, para sempre.
Tudo isto fez algum sentido do ponto de vista do capital, por mais problemático e insustentável que este sentido tenha acabado por se revelar, devido ao dramático princípio e imparável aprofundamento da crise estrutural do sistema. Mas mesmo este sentido parcial de algumas proposições ansiosas não poderá ser atribuído ao movimento político reformista que afirmou representar os interesses estratégicos do trabalho. No entanto, o reformismo social-democrata, no seu início, inspirava-se em tais ingénuas, ainda que no início genuínas, reflexões a posteriori da economia política liberal. Assim, devido à lógica interna das premissas sociais adoptadas, emanando da óptica e dos velados interesses do capital, como o controlador imutável do metabolismo reprodutivo, não poderia ser minimamente surpreendente que o reformismo social-democrata acabasse a sua rota de desenvolvimento do modo como realmente o fez: transformando-se a si próprio no "New Labor" (na Grã-Bretanha; e nos seus equivalentes em outros países) e abandonando completamente qualquer preocupação mesmo com a mais limitada reforma da ordem social estabelecida. Ao mesmo tempo, ao invés do liberalismo genuíno, as mais selvagens e desumanas variedades de neoliberalismo surgiram nesta fase histórica, apagando a memória dos remédios sociais advogados outrora — incluindo até as ansiosas soluções paternalistas — no passado progressista do credo liberal. E, como uma amarga ironia do desenvolvimento histórico contemporâneo, os antigos movimentos reformistas social-democratas, tipo"New Labor", uma vez instalados no governo — não só na Grã-Bretanha como também por toda a parte no "avançado" e não tão avançado mundo capitalista — não hesitaram em identificar-se sem reservas com a fase neoliberal agressiva dos apologistas do capital. Esta transformação submissa marcou claramente o fim da estrada reformista, que era aliás um beco sem saída desde o princípio.

2. Crescimento canceroso
A fim de criar uma ordem social reprodutiva economicamente viável, e também a longo prazo historicamente sustentável, é necessário alterar radicalmente as determinações auto-contraditórias no âmago da ordem estabelecida, as quais impõem a implacável submissão das necessidades humanas e de uso à necessidade alienante da expansão do capital. Isto significa que a pré-condição absurda do sistema produtivo dominante — em que os de valores de uso, por determinações de propriedade predeterminadas e totalmente iníquas, devem ser divorciados e opostos àqueles que os criam, para que provoquem e legitimem circularmente/arbitrariamente a auto-realização ampliada do capital — tem de ser relegada definitivamente para o passado. De outro modo, o único sentido viável da palavra economia, como utilização racional dos recursos finitos disponíveis (necessariamente finitos) não pode ser instituído e respeitado como um princípio de orientação vital. Ao invés disso, a dissipação irresponsável domina a ordem sócio-económica — e correspondente ordem política — do capital, a qual invariavelmente se reafirma como irresponsabilidade institucionalizada, não obstante sua própria mitologia da "eficiência" absolutamente insuperável. (Para não haver dúvida, a espécie de "eficiência" glorificada desta forma é, de facto, a eficiência em última análise auto-destruidora do capital, que conduz cegamente em frente as partes adversas/conflitivas com custos insuportáveis para o todo.) Compreensivelmente, portanto, as fantasias promovidas pelos governos de um "socialismo de mercado" tinham de dissipar-se, na forma de um colapso humilhante, devido à aceitação de tais pressupostos e determinações estruturais insuperáveis dentro do capitalismo.
A concepção agora dominante de "economia", totalmente incapaz de estabelecer limites, mesmo para o desperdício mais gravoso, que na nossa época atinge uma escala verdadeiramente planetária, pode apenas operar com tautologias auto-justificadoras e pré-fabricações arbitrárias, assim como falsas oposições e pseudo-alternativas, concebidas para o mesmo propósito da auto-justificação do injustificável. Como uma grosseira — e perigosamente infectante — tautologia, é-nos oferecida a definição arbitrária de produtividade como crescimento, e crescimento como produtividade, embora ambos os termos exigissem por si próprios uma avaliação historicamente qualificada e objectivamente sustentável.
Naturalmente, a razão porque a óbvia falácia tautológica é muito preferível à necessária avaliação teórica e prática adequada é que ao decretar arbitrariamente a identidade destas duas expressões chave de referência do sistema do capital a validade auto-evidente e a superioridade intemporal de uma ordem social reprodutiva extremamente problemática — e em última análise até auto-destrutiva — deveria parecer não só plausível como também absolutamente inquestionável. Ao mesmo tempo, a arbitrariamente decretada identidade tautológica de crescimento e produtividade é escorada pela igualmente arbitrária e auto-justificadora falsa alternativa entre "crescimento e não-crescimento". Além disso, esta última alternativa é automaticamente pré-julgada em favor do "crescimento" capitalisticamente promovido e definido. Ela é projectada e definida com quantificação fetichística, como convém ao seus modos de pressuposição eterna, como auto-glorificante sinónimo do próprio crescimento, nada mais específico e humanamente significativo do que a genericidade abstracta da expansão de capital ampliada como pré-condição para a satisfação das necessidades humanas e de uso.
É aqui que o incorrigível divórcio entre o crescimento capitalista e as necessidades humanas e de uso — na verdade sua potencialmente mais devastadora e destrutiva contra-posição às necessidades humanas — se denuncia a si próprio. Uma vez que as mistificações fetichistas e os postulados arbitrários na raiz da categoricamente decretada falsa identidade de crescimento e produtividade sejam expurgados, torna-se perfeitamente claro que a espécie de crescimento preconizado, e ao mesmo tempo automaticamente isentado de todo exame crítico, não está de forma alguma conectado a objectivos sustentáveis correspondentes às necessidades humanas. A única conexão que deve ser afirmada e defendida a todo custo no universo metabólico social do capital é a falsa identidade da — aprioristicamente pressuposta — expansão do capital e do circularmente correspondente (mas na verdade também pressuposto aprioristicamente) "crescimento", sejam quais forem as consequências impostas sobre a natureza e a humanidade pelos mais destrutivos tipos de crescimento. Pois a preocupação real do capital só pode ser a sua própria eterna expansão ampliada, mesmo se isto trouxer consigo a destruição da humanidade.
Nesta visão, mesmo o mais letal crescimento canceroso deve preservar o seu primado conceptual sobre (contra) as necessidades humanas e de uso, se por acaso as necessidades humanas forem sequer mencionadas. E quando os apologistas do sistema do capital querem considerar The Limits to Growth [5], como fez o "Clube de Roma" na sua amplamente propagandeada iniciativa de apologia do capital no princípio da década de 1970, o objectivo inevitavelmente continua a ser a eternização das graves desigualdades existentes [6] através do fictício (e quixotesco) congelamento da produção global capitalista num nível totalmente insustentável, culpando primariamente o "crescimento populacional" (como costumeiro na economia política burguesa desde Malthus) pelos problemas existentes. Comparada com tais "intenções de cura" hipócritas e brutais, pretendendo retoricamente estarem preocupadas com nada menos do que "a Situação da Espécie Humana", a anteriormente citada pregação de Mill, com sua genuína defesa de alguma distribuição mais equitativa do que aquela que lhe era familiar, foi o paradigma do iluminismo radical.
A caracteristicamente falsa e auto-justificativa alternativa de "crescimento ou não crescimento" é evidente mesmo se considerarmos apenas o que seria o impacto inevitável do proposto "não crescimento" sobre as graves condições de desigualdade e de sofrimento na ordem social do capital. Isto significaria a condenação permanente da esmagadora maioria da humanidade às condições desumanas que ela é agora forçada a suportar. Pois agora ela é, num sentido literal, forçada a suportá-las, aos milhares de milhões, quando poderia ser criada uma alternativa real para ela. Sob condições, ou seja, quando seria perfeitamente factível rectificar pelo menos os piores efeitos da privação global: colocando em uso humanamente recomendável e recompensador o potencial de produtividade já alcançado, num mundo cujos recursos materiais e humanos são agora criminosamente desperdiçados.

3. Produção destrutiva
Na verdade, só podemos falar do positivo potencial de produtividade, e não do existente na realidade, como muitas vezes mencionado, com boas intenções coloridas de verde mas também com ilusões sem limites, por antiquados reformadores a asseverarem que desejavelmente podíamos fazer "o correcto já", com os poderes produtivos hoje à nossa disposição, se realmente decidíssemos assim fazer. Infelizmente, contudo, tal concepção ignora completamente o modo como o nosso sistema produtivo está articulado actualmente, exigindo no futuro uma rearticulação radical. Pois a produtividade casada com o crescimento capitalista, na forma da agora dominante realidade da produção destrutiva, é um dos maiores adversários a proibi-lo. A fim de voltar a positiva potencialidade do desenvolvimento produtivo para uma realidade muito necessária, de modo a que possa rectificar muitas das gritantes desigualdades e injustiças da nossa sociedade existente, seria necessário adoptar os princípios regulativos de uma ordem social qualitativamente diferente. Por outras palavras, o agora destrutivamente negado potencial de produtividade da humanidade teria de ser libertado do seu invólucro capitalista a fim de se tornar poder produtivo socialmente viável.
A quixotesca defesa do congelamento da produção ao nível alcançado no princípio da década de 1970 era uma tentativa de camuflar, com um vácuo modelo pseudo-científico criado no Massachusetts Institute of Technology, as brutalmente impostas relações reais de poder do imperialismo do pós-guerra dominado pelos EUA. Esta variedade de imperialismo era, naturalmente, muito diferente da forma anterior conhecida por Lenine. No tempo de Lenine, pelo menos meia dúzia de potências imperialistas significativas estavam a competir pelas recompensas das suas conquistas reais ou esperadas. E mesmo na década de 1930, Hitler ainda estava desejoso de partilhar com o Japão e a Itália de Mussolini os frutos de uma violenta redefinição do imperialismo. No nosso tempo, em contraste, temos de enfrentar a realidade — e os perigos letais — decorrentes do imperialismo hegemónico global, com os Estados Unidos como potência esmagadoramente dominante [7]. Em contraste com Hitler, os Estados Unidos como hegemon único recusam-se totalmente a partilhar a dominação global com quaisquer rivais. E não se trata simplesmente de uma questão de contingências político/militares. Os problemas são muito mais profundos. Eles decorrem das contradições sempre agravadas do aprofundamento da crise de estrutura do sistema do capital. O imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA é uma tentativa — em última análise fútil — de inventar uma solução para esta crise através do mais brutal e violento domínio sobre o resto do mundo, forçado com ou sem a ajuda de "aliados servis", agora através de uma sucessão de guerras genocidas. Desde a década de 1970, os Estados Unidos têm estado a afundar-se, cada vez mais profundamente, no endividamento catastrófico. A solução fantasiosa proclamada publicamente por vários presidentes estadunidenses era "crescer para ultrapassar isto". E o resultado foi o diametralmente oposto, na forma de endividamento astronómico e ainda em crescimento. Consequentemente, os Estados Unidos devem pilhar para si próprios, por quaisquer meios à sua disposição que se revelar necessário, incluindo a mais violenta agressão militar, tudo o que puderem, através da transferência dos frutos do crescimento capitalista — graças à dominação socioeconómica global e político/militar dos Estados Unidos — de toda a parte do mundo. Será que alguma pessoa sã poderia então imaginar, não importa quão bem blindada pelo seu rígido desprezo para com o "mito da igualdade", que o imperialismo hegemónico global dominado pelos EUA consideraria seriamente, por um momento que fosse, a panaceia do "não crescimento"? Somente a pior espécie de fé cega poderia sugerir tais ideias, não importa quão pretensiosamente empacotadas nas hipócritas preocupações acerca do "Destino da Espécie Humana".
Por muitas razões não pode haver questões acerca da importância do crescimento, tanto no presente como no futuro. Mas ao dizer isso deve-se avançar com o exame adequado do conceito de crescimento, não só daquele que conhecemos até ao presente mas também como podemos encarar a sua sustentabilidade futura. Nosso apoio à necessidade do crescimento não pode ser favorável ao crescimento não qualificado. A questão real, tendenciosamente evitada, é: que espécie de crescimento é factível hoje, em contraste com crescimento capitalista perigosamente depredador e mesmo debilitante visível em torno de nós? Pois o crescimento também deve ser positivamente sustentável numa base a longo prazo.
Como já foi mencionado, o crescimento capitalista é inevitavelmente dominado pelos limites inescapáveis da quantificação fetichista. O desperdício sempre agravado é um corolário necessário de tal fetichismo, uma vez que não pode haver qualquer critério — nem nenhuma medida viável — através de cuja observância o desperdício pudesse ser corrigido. A quantificação mais ou menos arbitrária estabelece o contexto, criando em simultâneo a ilusão de que uma vez asseguradas as quantidades requeridas para os mais poderosos, já não pode haver novos problemas significativos. Mas a verdade nesta questão é que a quantificação auto-orientada na realidade não pode ser mantida de todo como uma forma de estratégia produtivamente viável, mesmo no curto prazo. Pois ela é parcial e míope (se não totalmente cega), preocupada apenas com quantidades correspondentes aos obstáculos imediatos que impedem o cumprimento de uma dada tarefa produtiva, mas não com os necessariamente associados limites estruturais do próprio empreendimento socioeconómico, os quais — quer saiba isto ou não — em última análise decidem todas as coisas. A confusão capitalisticamente necessária de limites estruturais com obstáculos (os quais podem ser quantitativamente ultrapassados), a fim de ignorar os limites (uma vez que eles correspondem a determinações insuperáveis da ordem social metabólica do capital), vicia a orientação do crescimento de todo o sistema produtivo. Tornar viável o crescimento exigiria aplicar-lhe considerações profundamente qualitativas. Mas isto é totalmente impedido pelo inquestionado e inquestionável impulso auto-expansionista a todo custo do capital, o qual é incompatível com a consideração constrangedora da qualidade e dos limites.
A grande inovação do sistema do capital é que ele pode operar — não dialecticamente — através da dominação esmagadora da quantidade: ao incluir tudo, inclusive o trabalho humano vivo (inseparável das qualidades da necessidade e uso humano) sob determinações quantitativas abstractas, na forma de valor e valor de troca. Isto é o segredo do triunfo — durante longo tempo irresistível — sócio-histórico do capital. Mas é também o arauto da sua insustentabilidade e necessária implosão final, logo que os limites absolutos do sistema estejam plenamente activados, como acontece cada vez mais na nossa própria época histórica. É no nosso tempo que a dominação não dialéctica da qualidade pela quantidade se torna perigosa e indefensável.
Portanto, no nosso tempo é inconcebível ignorar a fundamental – mas, sob o capitalismo, necessariamente secundarizada - conexão inerente da economia como economização (o que equivale a administração responsável). Chegámos agora a um ponto crítico na história, no qual as personificações voluntárias do sistema produtivo imperante fazem tudo ao seu alcance para eliminar toda a consciência daquela conexão objectiva vital — optando pela destrutividade inegável, não só com o culto de práticas produtivas extremamente devastadoras como também pela glorificação do seu empenhamento letalmente destrutivo em "guerras preventivas e antecipativas" sem limites.
A qualidade, pela sua própria natureza, é inseparável das especificidades. Consequentemente, um sistema metabólico social respeitoso da qualidade — acima de tudo das necessidades dos seres humanos vivos como sujeitos produtores — não pode ser regido hierarquicamente. Uma administração socioeconómica e cultural de espécie radicalmente diferente é requerida para uma sociedade operada na base de tal metabolismo reprodutivo qualitativamente diferente, o qual pode ser resumido sucintamente como auto-administração. A arregimentação era tanto factível como necessária para a ordem social metabólica do capital. De facto, a estrutura de comando do capital não poderia funcionar de qualquer outro modo. A hierarquia estruturalmente assegurada e a arregimentação autoritária são as características definidoras da estrutura de comando do capital. A ordem alternativa é incompatível com a arregimentação e com a espécie de contabilidade — incluindo a operação estritamente quantitativa do tempo de trabalho necessário — que devem prevalecer no sistema do capital. Portanto, a espécie de crescimento necessário e factível na ordem metabólica social alternativa só pode ser baseada na qualidade directamente correspondente às necessidades humanas: as necessidades reais e em desenvolvimento histórico, tanto da sociedade como um todo como dos seus indivíduos particulares.
Ao mesmo tempo, a alternativa à restritiva e fetichista contabilidade do tempo de trabalho necessário só pode ser a libertação e emancipação do tempo disponível, conscientemente oferecido e administrado pelos próprios indivíduos sociais. Esta espécie de controlo metabólico social dos recursos humanos e materiais disponíveis respeitaria — e realmente poderia fazê-lo — os limites gerais decorrentes do princípio orientador da economia como economização. Ao mesmo tempo, também expandiria conscientemente tais limites e necessidades qualitativas, conforme o permitissem as condições historicamente em desenvolvimento. Apesar de tudo, não deveríamos esquecer que "o primeiro acto histórico foi a criação de uma nova necessidade" (Marx). Só o modo descuidado de o capital tratar a economia — não como economização racional mas como a mais irresponsável legitimação do desperdício sem limites — é o que perverte totalmente este processo histórico: ao substituir a rica diversidade das necessidades humanas pela alienante necessidade única da auto-reprodução ampliada a todo o custo do capital, com isso ameaçando pôr um fim à própria história humana.

4. Impossibilidade de correcções parciais
Não pode haver sequer correcções parciais introduzidas na estrutura operacional do capital, se elas forem genuinamente orientadas para a qualidade. Pois as únicas qualidades relevantes quanto a isto não são algumas características físicas abstractas mas sim as qualidades humanamente significativas inseparáveis das necessidades. É verdade, naturalmente, como enfatizado anteriormente, que tais qualidades são sempre específicas, correspondendo a necessidades humanas particulares, claramente identificáveis, tanto dos próprios indivíduos como das suas historicamente dadas e cambiantes relações sociais. Consequentemente, na sua especificidade multilateral, elas constituem um conjunto coerente e bem definido de determinações sistémicas invioláveis, com os seus próprios limites sistémicos. É precisamente a existência de tais limites sistémicos — muito longe de abstractos — que torna impossível transferir quaisquer determinações operacionais e princípios orientadores significativos da ordem social metabólica alternativa considerada para dentro do sistema do capital. Os dois sistemas são radicalmente excludentes um do outro. Pois as qualidades específicas correspondentes às necessidades humanas, na ordem alternativa, carregam as marcas indeléveis das suas determinações sistémicas gerais, como partes integrantes de um sistema reprodutivo de controlo humanamente válido. No sistema do capital, ao contrário, as determinações gerais devem ser inalteravelmente abstractas, porque a relação de valor do capital deve reduzir todas as qualidades (correspondentes à necessidade e ao uso) a quantidades genéricas mensuráveis, a fim de afirmar sua alienante dominância histórica sobre tudo, no interesse da expansão do capital, pouco importando as consequências.
As incompatibilidades dos dois sistemas tornam-se perfeitamente claras quando consideramos o seu relacionamento com a questão do limite em si próprio. O único crescimento sustentável promovido positivamente sob a ordem metabólica social alternativa de controlo é baseado na aceitação consciente dos limites cujas violações colocaria em perigo a realização dos objectivos reprodutivos — e humanamente válidos — escolhidos. Portanto, o esbanjamento e a destrutividade (como conceitos limitantes claramente identificados) estão absolutamente excluídos pelas próprias determinações sistémicas aceites conscientemente, adoptadas pelos indivíduos sociais como seus princípios orientadores vitais. Em contraste, o sistema do capital é caracterizado, e fatalmente conduzido, pela — consciente ou inconsciente — rejeição de todos os limites, incluindo os seus próprios limites sistémicos. Mesmo estes últimos são tratados arbitrária e perigosamente como se não fossem mais do que obstáculos contingentes sempre superáveis. Portanto, qualquer coisa pode suceder neste sistema social reprodutivo, incluindo a possibilidade — e no momento em que alcançamos a nossa própria época histórica, também a probabilidade esmagadoramente grave — da destruição total.
Naturalmente, este relacionamento mutuamente excludente na questão dos limites prevalece também no outro sentido. Assim, não poderá haver "correctivos parciais" emprestados pelo sistema do capital, quando tiver sido criada e fortalecida a ordem social metabólica alternativa. As incompatibilidades parciais — para não dizer gerais — dos dois sistemas decorrem da incompatibilidade radical da sua dimensão de valor. Tal como mencionado acima, é por isto que as particulares determinações de valor e as relações da ordem alternativa não poderiam ser transferidas para dentro da estrutura metabólica social do capital, com o objectivo de melhorá-lo, como proposto por algumas concepções reformistas absolutamente irreais, coladas à metodologia vazia do "pouco a pouco". Mesmo as menores relações parciais do sistema alternativo estão profundamente embebidas nas determinações gerais de valor de uma estrutura completa de necessidades humanas cujo inviolável axioma elementar é a exclusão radical do desperdício e da destruição, de acordo com a sua natureza intrínseca.
Ao mesmo tempo, por outro lado, nenhuns "correctivos" parciais podem ser transferidos da estrutura operacional do capital para dentro de uma ordem genuinamente socialista, como o desastroso fracasso da aventura do "socialismo de mercado" de Gorbachev penosa e conclusivamente demonstrou. Pois também em relação a isto nós sempre seríamos confrontados pela incompatibilidade radical das determinações de valor, mesmo se em tal caso o valor envolvido é contra-valor destrutivo, correspondendo aos limites finais — necessariamente ignorados — do próprio sistema do capital. Os limites sistémicos do capital são perfeitamente compatíveis com o desperdício e a destruição. Pois tais considerações normativas só podem ser secundárias para o capital. Outras determinações, mais fundamentais, devem prevalecer sobre tais preocupações. É por isto que a indiferença para com o desperdício e a destruição, na origem do capital (nunca uma atitude mais positiva do que a indiferença) se transforma na sua mais activa promoção, quando as condições requerem esta mudança. De facto, neste sistema, o desperdício e a destruição devem ser prosseguidos implacavelmente em subordinação directa ao imperativo da expansão do capital, o determinante sistémico esmagador. Ainda mais assim é quando já deixámos para trás a fase de ascensão histórica de desenvolvimento do sistema do capital. E ninguém deveria ser enganado pelo facto de que, frequentemente, a afirmação preponderante do contra-valor é deturpada e racionalizada como "neutralidade do valor" pelos celebrados ideólogos do capital.
Era pois desconcertante que, no tempo da malfadada "perestroika" de Gorbachev, o seu "ideólogo chefe" (chamado oficialmente por esse nome) pudesse asseverar seriamente que o mercado capitalista e as suas relações mercantis eram as corporificações instrumentais do "valores humanos universais" e um "grande feito da civilização humana", acrescentando a estas grotescas afirmações capitulatórias que o capitalismo de mercado era mesmo "a garantia da renovação do socialismo" [8].Tais teóricos mantiveram-se a conversar acerca da adopção do "mecanismo de mercado", quando o mercado capitalista era tudo menos um adaptável "mecanismo" neutro. Ele estava de facto incuravelmente carregado de valor, e deve permanecer assim para sempre. Nesta espécie de concepção — curiosamente partilhado pelo "ideólogo chefe socialista" de Gorbachev (e outros) com os Friedrich von Hayeks deste mundo que denunciaram violentamente qualquer ideia de socialismo como "o caminho para a servidão" [9] — a troca em geral era a-historicamente e anti-historicamente identificada com a troca capitalista, e a realidade cada vez mais destrutiva do mercado capitalista com um ficcionalizado "mercado" benevolente em geral. Quer o percebessem ou não, eles capitularam perante a idealização dos imperativos de um implacável sistema de necessária dominação de mercado (inseparável em última análise das devastações do imperialismo) exigido pelas determinações intrínsecas da ordem social metabólica do capital. A adopção desta posição capitulatória foi igualmente expressa, mas de forma ainda mais nociva, no documento de reforma de Gorbachev. Pois ele insistiu em que
“Não há alternativas ao mercado. Só o mercado pode assegurar a satisfação das necessidades das pessoas, a distribuição justa da riqueza, direitos sociais e o fortalecimento da liberdade e democracia. O mercado permitiria à economia soviética estar organicamente ligada à do mundo, e dar aos nossos cidadãos o acesso a todas as realizações da civilização mundial” [10].
Naturalmente, dada a irrealidade total deste pensamento "não há alternativa" de Gorbachev, que esperava a generosa oferta "ao povo" de todos aqueles pretensos benefícios e realizações, em todos os domínios, por parte do mercado capitalista global, esta aventura só podia terminar, humilhantemente, na desastrosa implosão do sistema de tipo soviético.

5. O "não há alternativa"
Não é de maneira alguma acidental ou surpreendente que a proposição do "não há alternativa" ocupe um lugar tão proeminente nas concepções socioeconómicas e políticas formuladas do ponto de vista do capital. Nem mesmo os maiores pensadores da burguesia — como Adam Smith e Hegel — puderam ser excepções quanto a isto. Pois é absolutamente verdadeiro que a ordem burguesa ou tem êxito em afirmar-se na forma de expansão dinâmica do capital, ou está condenada ao fracasso final. Não pode haver realmente nenhuma alternativa concebível à expansão infinita do capital do ponto de vista do capital, o que determina a visão de todos aqueles que a adoptam. Mas a adopção deste ponto de vista também significa que a questão de "qual o preço a ser pago" pela expansão incontrolável do capital para além de um certo ponto no tempo — uma vez que a fase ascendente do desenvolvimento do sistema seja passada — não pode de forma alguma ser considerada. A violação do tempo histórico é portanto a consequência necessária da adopção do ponto de vista do capital, internalizando o imperativo expansionista do sistema como o seu determinante fundamental e absolutamente inalterável. Mesmo nas concepções dos maiores pensadores burgueses esta posição deve prevalecer. Não pode haver futura ordem social alternativa cujas características definidoras fossem significativamente diferentes daquelas já estabelecidas. É por isto que mesmo Hegel, que formulou de longe a mais profunda concepção histórica do seu próprio tempo, deve também arbitrariamente pôr um fim à história no inalterável presente do capital, idealizando o estado-nação capitalista [11] como o clímax insuperável de todo o desenvolvimento histórico concebível, apesar da sua aguda percepção das implicações destrutivas do sistema global de estados-nação.
Assim, não pode haver alternativa, no pensamento burguês, ao decretamento do pernicioso dogma do "não há alternativa". Mas é totalmente absurdo para os socialistas adoptarem a posição da infinita (e pela sua natureza incontrolável) expansão do capital. Pois que a resultante idealização do "consumo" — mais uma vez caracteristicamente não qualificado — ignora a verdade elementar de que, do ponto de vista acrítico do capital, favorável à sua própria auto-expansão, pode não haver diferença entre destruição e consumo. Uma é tão boa quanto o outro, para a finalidade requerida. Isto é assim porque a transacção comercial na relação capital — mesmo da espécie mais destrutiva, corporificada nos produtos do complexo industrial/militar e na utilização que lhes é dada nas suas guerras desumanas — completa com êxito o ciclo da auto-reprodução ampliada do capital, de modo a ser capaz de abrir um novo ciclo. Isso é a única coisa que realmente importa para o capital, por mais insustentáveis que possam ser as consequências. Consequentemente, quando socialistas internalizam os imperativos da expansão do capital como o terreno necessário do crescimento que defendem, eles não aceitam simplesmente um princípio isolado mas todo um "pacote negocial". Conscientemente ou não, eles aceitam, ao mesmo tempo, todas as falsas alternativas — como "crescimento ou não crescimento" — que podem ser derivadas da defesa acrítica da necessária expansão do capital.
A falsa alternativa do não crescimento deve ser rejeitada por nós não apenas porque a sua adopção perpetuaria a mais horrenda miséria e desigualdade que agora dominam o mundo, com todas as lutas e destrutividade que delas são inseparáveis. A negação radical de uma tal abordagem só pode ser um ponto de partida necessário. A dimensão inerentemente positiva da nossa visão envolve a redefinição fundamental da própria riqueza, tal como conhecida por nós. Sob a ordem metabólica social do capital somos confrontados pelo domínio alienante da riqueza sobre a sociedade, afectando directamente todos os aspectos da vida, desde o estritamente económico aos domínios culturais e espirituais. Consequentemente, não podemos sair do círculo vicioso do capital, com todas as suas determinações destrutivas e falsas alternativas, sem inverter por completo aquele relacionamento vital. Nomeadamente, sem fazer a sociedade — a sociedade de indivíduos livremente associados — governar sobre a riqueza, redefinindo ao mesmo tempo também a sua relação com o tempo e com a espécie de utilização que é dada aos produtos do trabalho humano. Como já escrevera Marx, numa das suas primeiras obras:
“Numa sociedade futura, na qual os antagonismos de classe terão cessado, na qual já não haverá mais quaisquer classes, a utilização não será mais determinada pelo tempo mínimo de produção; mas o tempo dedicado à produção de um artigo será determinado pelo grau da sua utilidade social” [12].
Isto significa um rompimento intransigente com a visão da riqueza como uma entidade material fetichista que deve ignorar os indivíduos reais que são os criadores da riqueza. O capital, naturalmente, — na sua falsa alegação de ser idêntico à riqueza, como o "criador e materializador da riqueza" — deve ignorar os indivíduos, ao serviço da auto-legitimação do seu próprio controlo metabólico social. Por este meio, ao usurpar o papel da riqueza real e ao subverter a utilização potencial em que esta poderia ser colocada, o capital é o inimigo do tempo histórico. Isto é o que deve ser corrigido para o bem da própria sobrevivência humana. Assim, todos os constituintes dos relacionamentos em desenvolvimento entre indivíduos reais historicamente auto-determinados, juntamente com a riqueza que eles criam e dão destino através da aplicação consciente da única modalidade viável de tempo — o tempo disponível — devem ser reunidos numa estrutura social metabólica qualitativamente diferente. Como dizia Marx:
“a riqueza real é o poder produtivo desenvolvido de todos os indivíduos. A medida da riqueza então já não é, de modo algum, tempo de trabalho e sim, ao invés disso, tempo disponível. O tempo de trabalho como medida do valor apresenta a própria riqueza como fundada sobre a pobreza, e o tempo disponível como existindo dentro e por causa da antítese ao tempo de trabalho excedente; ou, a apresentação de todo o tempo de um indivíduo como tempo de trabalho, e portanto sua degradação a mero trabalhador, subsunção sob o trabalho” [13].
Tempo disponível é o tempo histórico real dos indivíduos. Em contraste, o tempo de trabalho necessário requerido para o funcionamento do modo de controlo metabólico social do capital é anti-histórico, negando aos indivíduos o único meio pelo qual se podem afirmar e realizar-se como sujeitos históricos reais no controle da sua própria actividade vital. Na forma do tempo de trabalho necessário do capital, os indivíduos estão sujeitos ao tempo exercido como juiz tirânico e medida degradante, sem nenhum tribunal de recurso, ao invés de ser o próprio tempo julgado e medido em relação ao critério qualitativo humano das "necessidades dos indivíduos sociais" [14]. O perversamente auto-absolutizante tempo anti-histórico do capital sobrepõe-se então à vida humana como determinante fetichista, o qual reduz o trabalho vivo a "carcaça de tempo", como é debatido noutra passagem quanto à "Necessidade do planeamento". O desafio histórico é, então, mudar para a ordem social metabólica alternativa, com afastamento do domínio do tempo congelado do capital como determinante alienante, para que se torne livremente determinado pelos próprios indivíduos sociais que conscientemente dedicam à realização dos seus objectivos escolhidos os seus recursos de tempo disponível incomparavelmente mais ricos do que os que poderiam ser deles extorquidos através da tirania do tempo de trabalho necessário. Esta diferença é absolutamente vital. Pois só indivíduos sociais podem realmente determinar o seu próprio tempo disponível, em agudo contraste com o tempo de trabalho necessário que os domina. A adopção do tempo disponível é o único caminho concebível e justo pelo qual o tempo pode ser transformado de determinante tirânico em constituinte autonomamente e criativamente determinado do processo de reprodução.

6. Superar esta divisão social do trabalho
Este desafio envolve necessariamente a superação da divisão social do trabalho imposta estruturalmente de modo hierárquico. É que enquanto o tempo dominar a sociedade, na forma do imperativo de extrair tempo de trabalho excedente da esmagadora maioria, o pessoal responsável por este processo deve conduzir uma forma de existência substancialmente diferente, em conformidade com a sua função como executores voluntários do imperativo do tempo alienante. Sob tais condições, o processo de reprodução social deve afundar-se cada vez mais profundamente na sua crise estrutural, com as perigosas implicações finais de nenhum caminho de retorno possível.
O pesadelo do "estado estacionário" continua a ser um pesadelo, mesmo que alguém tente aliviá-lo, como propunha John Stuart Mill, através do remédio ilusório da "melhor distribuição" tomado isoladamente. Já não pode haver tal coisa como "melhor distribuição" sem uma reestruturação radical do próprio processo de produção. A alternativa hegemónica socialista ao domínio do capital exige fundamentalmente a ultrapassagem da dialéctica truncada no inter-relacionamento vital da produção, distribuição e consumo. Pois sem isto é inconcebível o objectivo socialista de transformar o trabalho na "primeira necessidade vital". Para citar Marx:
“Numa fase mais elevada da sociedade comunista esvaneceu-se a escravizante subordinação do indivíduo à divisão do trabalho, e com isto também a antítese entre trabalho mental e físico; depois de o trabalho se ter tornado não só um meio de vida mas na primeira necessidade vital; depois de as forças produtivas também se acrescerem com o desenvolvimento completo do indivíduo, e todos os mananciais da riqueza cooperativa fluírem mais abundantemente — só então o estreito horizonte do direito burguês poderá ser transposto na sua totalidade e a sociedade inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo as suas necessidades!" [15].
Estes são os objectivos gerais da transformação socialista, que proporcionam a bússola para a jornada e simultaneamente também a medida para as realidades alcançadas (ou falhadas) durante o caminho. Dentro de uma tal visão da alternativa hegemónica à ordem reprodutiva social do capital, não pode de todo haver espaço para qualquer coisa como "o estado estacionário", nem para quaisquer falsas alternativas a ele associadas ou dele derivadas. "O desenvolvimento completo dos indivíduos", ao exercerem conscientemente os recursos plenos do seu tempo disponível, dentro da estrutura do novo controlo metabólico social orientado para a produção da "riqueza cooperativa", significa proporcionar a base de uma contabilidade qualitativamente diferente: a necessária contabilidade socialista, definida pela necessidade humana e diametralmente oposta à quantificação fetichista e ao concomitante desperdício inevitável.
Daí a importância vital de que uma espécie sustentável de crescimento possa ser reconhecida e administrada com êxito na estrutura metabólica social alternativa. Tal ordem alternativa de controlo metabólico social seria aquela em que a antítese entre trabalho mental e físico — sempre vital para manter a dominação absoluta do trabalho pelo capital, como o usurpador da função do controle do sujeito histórico — deveria desaparecer para sempre. Consequentemente, a própria produtividade, conscientemente perseguida, pode ser elevada a um nível qualitativamente mais alto, sem qualquer perigo de desperdício incontrolável, trazendo consigo genuína — e não estreitamente orientado para o lucro — riqueza, da qual os "indivíduos sociais enriquecidos" (Marx), como sujeitos históricos autónomos (e ricos precisamente neste sentido) deterão plenamente o controle.
No "estado estacionário", em contraste, os indivíduos não poderiam ser sujeitos históricos autênticos. Pois eles não poderiam estar no controle das suas próprias vidas, visto estarem à mercê da pior espécie de determinações materiais, directamente sob o domínio da escassez irremediável.
O desperdício sempre crescente — e nas suas implicações finais, catastrófico — no sistema do capital é inseparável do modo irresponsável como os bens e serviços produzidos são utilizados, ao serviço da expansão lucrativa do capital. Perversamente, quanto mais baixa for a sua taxa de utilização, mais elevado é o âmbito para a substituição lucrativa — um absurdo que decorre da posição alienada do capital, da qual não se pode traçar distinção significativa entre consumo e destruição. Pois a destruição totalmente esbanjadora atende da mesma forma que o consumo genuíno, correspondente ao uso, à procura requerida pelo capital auto-expansionista de um novo ciclo lucrativo de produção. Contudo, o momento da verdade chega quando tem de ser pago um preço pesado pela administração criminosamente irresponsável do capital, no curso do desenvolvimento histórico. É neste ponto que o imperativo de adoptar uma taxa de utilização cada vez melhor e incomparavelmente mais responsável dos bens e serviços produzidos — e na verdade produzidos conscientemente tendo em mente aquele objectivo, em relação às necessidades e uso humanos — torna-se absolutamente vital. Pois a única economia viável — aquela que economiza de um modo significativo e é portanto sustentável, no futuro próximo e mais distante — só pode ser a espécie de economia administrada racionalmente, orientada para a utilização óptima dos bens e serviços produzidos. Não pode haver crescimento de uma forma sustentável fora destes parâmetros de administração racional orientada por necessidades humanas genuínas.
Para tomar um exemplo crucialmente importante do que está irremediavelmente errado quanto a isto sob o domínio do capital, deveríamos pensar no modo pelo qual um número sempre crescente de carros motorizados é utilizado nas nossas sociedades. Os recursos dissipados na produção e alimentação dos carros são imensos sob o "capitalismo avançado", representando a segunda mais elevada despesa — após os compromissos com hipotecas — das famílias. Contudo, absurdamente, a taxa de utilização dos carros é de menos de 1 por cento, falsamente justificada pelos direitos de posse exclusivos conferidos aos seus compradores. Ao mesmo tempo, as alternativas reais perfeitamente praticáveis não são simplesmente desprezadas e sim activamente sabotadas pelos maciços interesses velados de corporações quase-monopolistas. Pois a singela verdade é que do que os indivíduos precisam (e não obtêm, apesar da pesada carga financeira sobre eles imposta) é de serviços de transportes adequados, e não da economicamente esbanjadora e ambientalmente danosa mercadoria que também os faz perder horas incontáveis das suas vidas em congestionamentos de tráfego pouco saudáveis.
Evidentemente, a alternativa real seria desenvolver o transporte público ao nível qualitativamente mais elevado, satisfazendo os critérios necessários quanto a economia, ambiente e saúde pessoal, bem dentro do âmbito de um tal projecto prosseguido racionalmente, confinando ao mesmo tempo a utilização de carros motorizados — possuídos colectivamente e distribuídos adequadamente, mas não exclusivamente/dissipadoramente possuídos – a funções específicas. Deste modo, as próprias necessidades dos indivíduos — neste caso a sua genuína necessidade de serviços de transporte adequados — determinaria os objectivos a cumprir pelos veículos e pelas instalações de comunicação (como estradas, redes ferroviárias e sistemas de navegação) a serem produzidos e mantidos, de acordo com o princípio da utilização óptima, ao invés de os indivíduos serem completamente dominados pela necessidade fetichista do sistema de operar uma lucrativa, mas em última análise destrutiva, expansão do capital.
A questão inevitável - mas até ao presente tendenciosamente evitada - da economia real, correspondendo às considerações apresentadas neste artigo, deve ser enfrentada no futuro muito próximo. Pois nos assim chamados países do terceiro mundo é inconcebível seguir o padrão de "desenvolvimento" esbanjador do passado, o qual de facto os condenou às suas precárias condições de hoje, sob o domínio do modo de reprodução metabólica social do capital. O fracasso clamoroso das muito promovidas "teorias da modernização" e dos seus correspondentes corpos institucionais demonstrou claramente a desesperança daquela abordagem.

7. A urgência em enfrentar os problemas
Pelo menos sob um certo aspecto, vimos no passado recente soar o alarme quanto a estas questões — caracteristicamente, pressionando em simultâneo pela afirmação e absoluta preservação dos privilégios dos países capitalistas dominantes. A preocupação é com a crescente necessidade internacional de recursos energéticos e a intervenção competitiva de algumas economias potencialmente imensas, acima de tudo a China, no processo em desenvolvimento. Hoje, esta preocupação é primariamente com a China, mas na devida altura também a Índia, naturalmente, deverá ser acrescentada à lista dos grandes países que fazem inevitavelmente pressão sobre recursos energéticos vitais. E quando acrescentamos à China a população do subcontinente indiano, estamos a falar de mais de 2,5 mil milhões de pessoas. Naturalmente, se eles realmente seguissem a outrora grotescamente propagandeada receita de As etapas do crescimento económico [16], com a sua grosseira defesa do "arranque capitalista e viagem para a maturidade", isso teria consequências devastadoras para todos nós. A plena automobilização de mais 2,5 mil milhões de pessoas, de acordo com o modelo estadunidense de "desenvolvimento capitalista avançado", com mais de 700 carros para cada 1000 pessoas, significaria que todos nós estaríamos mortos a breve trecho, por meio dos benefícios "modernizadores" globais da poluição venenosa, para não mencionar o esgotamento total das reservas petrolíferas do planeta num piscar de olhos. Mas do mesmo modo, num sentido oposto, ninguém pode encarar seriamente que os países em causa pudessem ser relegados indefinidamente à posição em que estão hoje. Imaginar que 2,5 mil milhões de pessoas, da China e do subcontinente indiano, pudessem ser condenadas permanentemente à sua actual situação aflitiva, ainda de certa forma sob a pesada dependência das partes capitalistamente avançadas do mundo, desafia toda a credulidade. A única questão é: se a humanidade pode encontrar uma solução racionalmente viável e verdadeiramente justa para a exigência legítima de desenvolvimento económico e social dos povos envolvidos. De contrário, a competição antagónica e a luta destrutiva pelos recursos serão o caminho do futuro, pois compatibiliza-se com a estrutura orientadora e os princípios operacionais do modo de controlo reprodutivo social do capital.
Outro aspecto pelo qual o imperativo absoluto de adoptar um modo qualitativamente novo de organizar a vida económica e social surgiu no horizonte do nosso tempo refere-se à ecologia. Mas, mais uma vez, o único modo viável de corrigir os problemas cada vez mais graves da nossa ecologia global — se quisermos enfrentar de um modo responsável o agravamento dos problemas e contradições da casa planetária, desde o seu impacto directo sobre questões vitais como o aquecimento global à procura elementar por recursos em água limpa e ar respirável com segurança — é comutar da ordem existente da administração esbanjadora, da quantificação fetichista, para uma outra genuinamente orientada para a qualidade. A ecologia, quanto a isto, é um aspecto importante mas subordinado da necessária redefinição qualitativa da utilização de bens e serviços produzidos, sem a qual a defesa de uma ecologia permanentemente sustentável da humanidade — mais uma vez: um dever absoluto — não pode ser senão um voto piedoso.
O ponto final a enfatizar neste contexto é que a urgência de enfrentar estes problemas não pode ser subestimada, muito menos minimizada, dados os interesses velados do capital, sustentados pelas suas formações estatais imperialistas dominantes, na sua insuperável rivalidade entre si. Ironicamente, embora haja tanta conversa propagandística acerca da "globalização", as exigências objectivas de fazer funcionar uma ordem de intercâmbios sociais racionalmente sustentável e globalmente coordenada são constantemente violadas. Mas, dada a presente etapa do desenvolvimento histórico, permanece a verdade irreprimível de que, em relação a todas as grandes questões discutidas neste artigo, estamos realmente confrontados com o sempre crescente agravamento dos desafios globais, que exigem soluções globais. Contudo, a nossa mais grave preocupação é que o modo de reprodução metabólica social do capital — tendo em vista as suas determinações estruturais inerentemente antagónicas e as suas manifestações destrutivas — não é de todo receptivo a soluções viáveis globais. O capital, dada sua natureza inalterável, nada é, a menos que possa prevalecer na forma de dominação estrutural. Mas a outra dimensão inseparável da dominação estrutural é a subordinação estrutural. Esta é a maneira como o modo de reprodução metabólica social do capital sempre funcionou e deve sempre tentar funcionar, acarretando com isto mesmo as guerras mais devastadoras, das quais tivemos no nosso tempo muito mais do que uma amostra. A afirmação violenta dos imperativos destrutivos do imperialismo hegemónico global, através do anteriormente inimaginável poder destrutivo dos Estados Unidos, como o hegemon global, não pode trazer soluções globais aos nossos problemas em constante exacerbação, mas apenas o desastre global. Assim, a necessidade inevitável de corrigir estes problemas globais de um modo historicamente sustentável coloca na ordem-do-dia o desafio do socialismo no século XXI — a única alternativa hegemónica viável ao modo de controlo metabólico social do capital.

(*) István Mészáros (1930) é um filósofo de origem húngara, radicado há várias décadas em Inglaterra, onde foi professor emeritus na Universidade de Sussex. Foi discípulo de Gyorgy Lukács na chamada “escola de Budapeste”, tendo publicado obras de referência como ‘Marx's Theory of Alienation’ (1970) e ‘The Power of Ideology’ (1989). Desde a publicação do seu monumental ‘Beyond Capital: Toward a Theory of Transition’ (1994), é considerado uma figura de proa na renovação do pensamento socialista contemporâneo. A versão original deste ensaio foi publicada em Monthly Review, vol. 58, nº 11, Abril/2007.

Esta tradução de Jorge Figueiredo, que é também responsável pelos subtítulos, foi publicada inicialmente no boletim electrónico Resistir a 30 de Abril de 2007. O seu texto foi revisto para ‘O Comuneiro’.

Notas:
[1] Karl Marx, Capital, vol. 1 (Penguin Classics, 1992), p. 85.
[2] John Stuart Mill, Principles of Political Economy (Prometheus Books, 2004), p. 751.
[3] Mill, Principles, p.749.
[4] Mill, Principles, p. 749.
[5] Para citar este livro com o seu título completo e absolutamente pretensioso, Donella H. Meadows, et al., The Limits to Growth: A Report for the Club of Rome Project on the Predicament of Mankind (London, Earth Island Limited, 1972).
[6] De forma reveladora, a principal figura teórica por trás desta iniciativa "limitadora do crescimento", o Professor Jay Forrester, do Massachusetts Institute of Technology, desdenhosamente afastou toda a preocupação com a igualdade como uma mera "superstição (shibboleth) da igualdade". Ver sua entrevista em Le Monde, 01/Agosto/1972.
[7] Ver István Mészáros, Socialism or Barbarism: From the "American Century" to the Crossroads (Monthly Review Press, 2001).
[8] Vadim Medvedev, "The Ideology of Perestroika", in Perestroika Annual 2, Abel Aganbegyan, (ed.) (London Futura/Macdonald, 1989), p. 31-32.
[9] "The Road to Serfdom", título do mais famoso livro da cruzada de Hayek.
[10] Gorbachev citado em John Rettle, "Only market can save Soviet economy", The Guardian, 17/Outubro/1990.
[11] Para citar um dos postulados idealistas de Hegel: "O estado nação é mente na sua racionalidade substantiva e realidade imediata e é portanto o poder absoluto sobre a Terra". G. W. F. Hegel, The Philosophy of Right (Cambridge, Cambridge University Press, 1991), p. 212.
[12] Marx, The Poverty of Philosopy, in Marx-Engels Collected Works, vol. 6, p. 134. Citado em István Mészáros, "The Communitarian System and the Law of Value in Marx and Lukács" (capítulo 19 de Beyond Capital), Critique, nº 23, 1991, p. 26. Ver também capítulo 15 ("The Decreasing Rate of Utilization under Capitalism") e capítulo 16 ("The Decreasing Rate of Utilization and the Capitalist State") de Beyond Capital, o qual trata de algumas importantes questões relacionadas.
[13] Karl Marx, Grundrisse, p.708.
[14] Ibidem.
[15] Karl Marx, Critique of the Gotha Programme, in Marx and Engels, Selected Works, vol. 2, p. 23.
[16] Ver Walt Rostow, The Stages of Economic Growth: A Non-Communist Manifesto (Cambridge: Cambridge University Press, 1960).

Via: http://www.ocomuneiro.com/nr5_01_IstvanMeszaros-Aunicaeconomiaviavel.html

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